Como é sofrer uma cirurgia LASIK?

O diretor editorial do Gizmodo US, Brian Lam, passou por uma cirurgia de correção de visão com a técnica LASIK; leia sua experiência na íntegra e assista a um vídeo

 

A enfermeira aplicou uma série de gotas anestésicas no meu globo ocular, uma mais forte do que a outra. O médico apertou minhas pálpebras com um instrumento de metal. Senti uma ferramenta em meu olho, e alguém na sala de operações deu a ordem: “Sucção”.

Iniciou-se um zumbido, e tive a impressão de que meu globo ocular era aspirado para fora do meu crânio, esticado como uma uva verde entre os dedos de um imperador romano, pronto para arrebentar. A brilhante luz azul e branca se aproximou. Assim que a pressão cortou a circulação do meu olho, tudo ficou preto, e eu senti uma lâmina curvada na superfície da minha córnea – não movimentei minha mandíbula, minha língua ou minha boca, mas no fundo da minha garganta lamuriei incontrolavelmente: “ISSO DÓI!” – e torci para que ninguém tivesse me ouvido. Torci também para não sentir o mesmo no outro olho. Não senti, pois o efeito das gotas já era total quando o olho foi cortado pelo feixe de luz. O resto foi, como eles dizem, fisicamente indolor.

Alguns dias antes, na praia Linda del Mar, uma onda me jogou da minha longboard. Na turbulência, minhas lentes de contato caíram. Era impossível pegar mais ondas com o que me restou de visão. Apesar de vez ou outra eu ter cogitado a idéia por anos, foi ali que eu decidi fazer o LASIK o mais rápido possível. Um amigo me disse que teve êxito com o LasikPlus. Coincidentemente, meu plano de saúde dava um bom desconto para ele, então resolvi tentar.

Fiz uma consulta grátis. O consultório era igual a qualquer outro, com uma exceção: no meio – atrás de uma imensa janela de vidro que todos na sala de espera podiam ver – havia uma cadeira de operações situada entre máquinas gigantes meio quadradas, que tinham bicos projetados como se estivessem prontos para fazer a festa em quem quer que estivesse sentado na cadeira.

A optometrista concluiu que eu era um bom candidato à cirurgia baseada no fato de eu ter miopia baixa para média, pouco astigmatismo e, fora isso, olhos saudáveis. Ela me mostrou um panfleto com todas as opções que eu podia escolher. O pacote básico de US$ 900 usa um bisturi para abrir a córnea e um laser UV amplo que remove tecido com uma espessura equivalente à de 1/500 de um fio de cabelo. Eu optei pelo pacote de US$ 2.000, que abre a córnea com um laser em vez de um bisturi e faz um mapa personalizado das irregularidades do meu olho, setor por setor. Essa análise guiada por frentes de onda é a mesma tecnologia usada pela NASA para detectar e conter irregularidades em telescópios altamente poderosos. Isso diminuiria halos em volta de luzes brilhantes e “melhoraria a visão de forma dramática”. A Marinha recomenda essa versão do LASIK para seus pilotos. E, se é bom o suficiente para Top Gun, é bom o suficiente para mim, apesar do custo. (Essas cotações são por olho.)

Fiquei surpreso ao descobrir depois que outras pessoas escolhiam a cirurgia básica. Estremeci quando o olho de uma senhora foi cortado por um bisturi em um dispositivo semelhante a uma plaina de carpinteiro. Outra mulher – cujo marido faria a cirurgia dependendo do resultado da dela – reclamou de problemas de visão noturna, mas não optou pelo procedimento mais caro, que reduz os halos. Achei isso surpreendente, até porque os banners no site da LasikPlus ofereciam financiamento a 0%.

Alguém perguntou à enfermeira qual a diferença entre o LASIK barato e o caro, e ela disse algo que pode não ser muito aprovado pela empresa: o caro é como TV de alta definição, e o barato é como uma de definição padrão, mas ambos funcionam bem. Pensei comigo: “Like hell, nem ferrando uma de definição padrão funciona bem!” Mas todos na sala acenaram com a cabeça, como se ainda usassem VHS em suas casas.

No sábado anterior ao laser, surfei usando lentes de contato, mas fui avisado para usar óculos pelos três dias seguintes, para preparar meus olhos para a operação. Lentes duras precisam ser deixadas de lado por um período de quatro a seis semanas antes da cirurgia, pois afetam muito o formato do globo ocular.

Novamente com meus óculos, apreciei a bela armação de titânio e as lentes ultrafinas. Percebi que havia muito a ser dito sobre como óculos me faziam sentir. Na sétima série, percebi uma dificuldade em enxergar o que estava escrito na lousa, mas evitei usá-los e passei a aula de matemática forçando os olhos. O professor avisou a enfermeira, e eu acabei com uns óculos dourados horríveis, com aros em forma de chifres. Sentia-me constrangido, quase diminuído, com eles.

Esse sentimento se foi conforme eu cresci e ganhei algum orgulho nerd, mas eu sempre me permiti dizer coisas mais geek ou mais socialmente estranhas quando usava óculos. Eu podia fuçar o meu telefone em vez de acompanhar uma conversa em grupo, empurrar meus óculos sobre o nariz e rir um pouco mais alto do que o normal de coisas meio estúpidas; e esperar que as pessoas relacionassem isso à nerdeza. Acho que posso sentir falta disso, apesar de todas as vantagens de se ter uma visão melhorada com laser.

No dia da operação, o médico falou aos pacientes na sala de espera. Todo o processo duraria cerca de 15 segundos por olho. Nada que fizéssemos poderia levar a cirurgia a dar errado, mas, por favor, não chacoalhem as pernas. (?!?) Lisa me perguntou no mínimo cinco vezes se eu estava com medo. Isso fez com que eu me perguntasse se eu parecia estar com medo, pois eu não achava que estava com medo e, se parecesse estar com medo, isso queria dizer que estava com tanto medo que nem sequer percebia. O que me assustou. Muito.

Logo que minhas córneas foram abertas e eu senti uma dor inicial, fiquei totalmente aterrorizado e escapei para um canto da minha mente onde eu não pensaria muito sobre todas as coisas que eles estavam fazendo com meus olhos e como seria minha vida se por acaso eu fosse um dos “menos de 1%” de pacientes com complicações de redução da visão.

Eu já estava nesse cone mental de silêncio quando o médico levantou os meus flaps [retalhos/discos lamelares criados na superfície dos olhos, que, deslocados, permitem a remodelação do tecido da córnea pelo laser] usando algo que parecia pauzinhos de metal misturando uma fritura enquanto eu olhava de dentro da panela wok, em uma perspectiva de primeira pessoa. Fui deslocado para debaixo da maior máquina da sala, um olho de uma flamejante luz vermelha/laranja, o que me lembrou de um programa do Discovery Channel sobre estrelas explodindo. Houve um som, um clique como aquele de uma bobina de Tesla, e um cheiro de ozônio que se manteve por 15 segundos, na contagem da enfermeira. Meus olhos estavam presos, e eu senti que estava sendo queimado vivo (apesar de o laser UV do LASIK não causar dano térmico ao tecido). Fui avisado para não tentar me mover ou piscar, o que, é claro, faz você se mover e piscar. Os músculos do meu olho lutaram contra os aparelhos que me seguravam firme, e, antes que eu pudesse me acalmar, o laser parou.


O médico terminou o outro olho e levantou-me. Havia névoa em toda a volta, e o contraste era abismal, mas minha visão melhorou em medidas de nitidez. Dormi no carro de volta pra casa enquanto Lisa dirigia, e, assim que passou o efeito dos analgésicos, começou a parte difícil: eu devia evitar qualquer estímulo óptico e dormir pelo resto do dia. Em determinado momento, não consegui agüentar mais e chequei meus e-mails. Todos eles.

Fui avisado de que na manhã seguinte eu teria uma experiência milagrosa que mudaria minha vida ao acordar sem precisar de óculos ou lentes. Na verdade, não foi assim tão milagroso. Meus olhos ainda em processo de cicatrização podiam enxergar com certa nitidez, mas com muito haze, neblina. Algo semelhante a dormir com lentes de contato. Tirei a proteção ocular em formato de raquete, com a qual eu devia dormir por uma semana, e comecei o tratamento esteróide e antibiótico com gotas, que também devia ser mantido por uma semana. Coloquei uma roupa e fui para a consulta de check-up. E foi que o milagre aconteceu.

Eu fiquei em frente ao maldito quadro de leitura e, apesar do haze, detonei a linha 20/20. Se meus olhos já estivessem melhores, também teria lido as letras da linha 20/15. Nada mal por US$ 4.000, um laser nos meus olhos por menos de um minuto e um dia de repouso.

Depois de me acostumar com a nitidez, tenho certeza de que ficarei preocupado com a possibilidade de pertencer à baixa porcentagem de pessoas que saem insatisfeitas do LASIK. (A Wikipédia cita quatros estudos que indicam satisfação pós-operatória entre 92% e 98%, o que ainda é um monte de pessoas irritadas.) Mesmo que as coisas corram perfeitamente, dizem que a cicatrização completa demora de três a seis meses, período em que a minha visão será irregular. Às vezes os globos oculares podem ficar mais secos do que eu gostaria. Os maiores problemas que tenho agora são os halos noturnos – que supostamente melhorarão com o tempo, principalmente com o método guiado por frentes de onda que dividiu meus olhos – e a terrível, terrível vermelhidão nos olhos, por causa do dispositivo de sucção. Dizem que pode demorar algumas semanas para clarear, e, enquanto espero, tenho usado óculos escuros à noite e desculpando-me por eles. Irritante.

Nada disso me incomoda muito, tirando o fato de que uma tecnologia mais nova, melhor e mais segura virá mais cedo ou mais tarde, e meus olhos podem acabar obsoletos como iPods back-to-school [da promoção “de volta às aulas” que a Apple costuma fazer até setembro, ou seja, logo antes do lançamento de novos produtos]. Existe um papo sobre usar o laser para fazer o corte do flap, de um rompimento mais baixo no tecido da córnea, para completar toda a operação, em breve. E eu não sei se meus olhos, já tendo sido cortados, serão compatíveis com isso. Bom, por enquanto eu permaneço como topo-de-linha e suportaria com prazer dez vezes a (na maioria das vezes imaginária) dor do LASIK para adquirir a qualidade de vista encontrada nos lançadores de elite da Major League Baseball.

[Agradecimentos a Lisa por me alimentar, dirigir pra casa e gravar o vídeo.]

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11:55 - 22 de setembro de 2008
Por Brian Lam (trad. Emerson Kimura)
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Cirurgia

Mt bacana essa cirurgia. Não vejo a hora de poder fazer a minha.
Óculos, só de sol =P

 

ram arrrrrrrrraaaaaaaam.. nao use oculos, deixo isso pros "fracos de genetica".. :D

Vale a pena e custa mais barato que nos EUA

Prezados

Fiz esta mesma cirurgia LASIK com mapeamento por wavefront (mapa de ondas) aqui no Brasil/SP, com medico particular e aparelhamento no Hospital Albert Eistein.

Saiu cerca de U$ 2.500 os dois olhos (R$ 1750 cada olho + R$ 400 do mapeamento + R$ 200.00 em consulta particular - nao tenho convenio medico).

Fiquei muito satisfeito com o resultado. Faria novamente.

Mas MUITO cuidado no pos-operatorio. O olho esta sensivel e sujeito a infeccoes.

Pelos comentarios de medicos, os problemas acontecem por falta de atencao do paciente no pos-operatorio, justamente porque voce se sente muito bem e sem efeitos colaterais.

Meu medico foi:
Dr Wilson de Freitas
Rua Comendador Cantinho 555 - Sao Paulo / SP
(11) 6646-4339
Curriculum dele no Lattes:
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4702959J4

me lembrei daquele episódio dos Simpsons em que o Bart encontra Ned Flanders cego, no futuro:
- oh, my God, you´re blinded-ded!!
- oh, yeah. I never should have had that trendy laser surgery. It was great at first but, you know, at the ten-year mark your eyes fall out.

Fiz lasik também, sou uma ex-míope feliz. so far so good. a cirurgia completa dez anos em 2009. hmmmm...

iiiih.
vai ficar cega igual ao Ned :]
ahahahahaha

Laranja Mecânica

Quando ele colocou esses estabilizadores de pálpebras lembrei na hora do filme Laranja Mecânica... hauhauuah... Faltou colocar você para ver alguns vídeos insuportáveis ouvindo sua musica preferida... ahhaha

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