A ideia de “cultura” costuma ser associada aos humanos, mas não é exclusiva de nossa espécie. Os chimpanzés, junto com os bonobos, nossos parentes mais próximos, também demonstram práticas culturais diversificadas. Essas culturas incluem habilidades impressionantes, como o uso de ferramentas para resolver problemas do cotidiano.
Desde usar folhas para absorver água até criar sondas complexas para coletar cupins, os chimpanzés mostram um nível de criatividade e aprendizado que reflete uma capacidade de acumulação cultural semelhante, embora mais limitada, à dos humanos.
O estudo que reescreve a história cultural dos chimpanzés

Pesquisadores da Universidade de Zurique (UZH) analisaram o comportamento e os marcadores genéticos de chimpanzés em 35 locais diferentes. Utilizando o que chamaram de “máquina do tempo genética”, rastrearam conexões culturais e genéticas entre populações de chimpanzés ao longo de milhares de anos.
O estudo, publicado na revista Science, revelou que as tecnologias mais complexas, como o uso de conjuntos de ferramentas, estavam surpreendentemente ligadas entre populações separadas por grandes distâncias. Isso sugere que essas tecnologias foram transmitidas de uma comunidade para outra, especialmente por meio das fêmeas migratórias que se juntam a novos grupos para evitar a endogamia.
Tecnologias complexas: a sonda de pesca de cupins
Um exemplo notável dessas ferramentas complexas está nos chimpanzés do Congo. Eles utilizam um galho resistente para cavar túneis até ninhos subterrâneos de cupins. Depois, criam uma sonda de pesca a partir de um talo de planta, moldando-o com os dentes para formar uma ponta com formato de escova. Essa ferramenta é inserida no túnel, e ao ser retirada, traz os cupins mordedores presos, prontos para serem consumidos.
Esse processo, que combina várias ferramentas e etapas, reflete um nível de sofisticação raramente observado em animais não humanos.
Migrações femininas e transmissão cultural
O estudo destacou o papel crucial das fêmeas de chimpanzés na transmissão de tecnologias e culturas. Quando uma fêmea sexualmente madura ingressa em um novo grupo, ela não apenas contribui para a diversidade genética, mas também traz conhecimentos culturais que podem enriquecer as práticas do grupo receptor.

A transmissão dessas tecnologias avançadas entre grupos distantes sugere que as invenções mais complexas raramente são reinventadas, reforçando a ideia de que essas práticas foram acumuladas e aprimoradas ao longo de gerações.
Implicações para a evolução humana
A pesquisa oferece uma nova perspectiva sobre a evolução cultural e tecnológica nos hominídeos. Ao estudar essas práticas nos chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos, os cientistas podem obter pistas valiosas sobre como os primeiros humanos desenvolveram suas próprias culturas acumulativas.
Desde as primeiras ferramentas de pedra até as tecnologias modernas, a capacidade de transmitir conhecimentos e aprimorá-los ao longo do tempo tem sido um traço distintivo dos humanos. Este estudo sugere que essa habilidade possui raízes profundas em nosso linhagem compartilhada com outros primatas.
Um olhar para o passado e o futuro
A “máquina do tempo genética” não apenas permite rastrear o desenvolvimento cultural dos chimpanzés, mas também oferece uma janela para o passado evolutivo humano. Entender como nossos parentes mais próximos desenvolvem e transmitem tecnologias pode ajudar a responder questões fundamentais sobre a natureza de nossa própria inteligência e cultura.
Em última análise, este estudo reforça que a cultura não é exclusiva dos humanos, mas um traço compartilhado e evoluído ao longo do tempo no fascinante ramo dos hominídeos.