É difícil pensar em Dragon Ball sem que um nome venha imediatamente à cabeça. Desde os anos 1980, a saga criada por Akira Toriyama construiu sua identidade ao redor de um protagonista carismático, sempre pronto para ultrapassar seus próprios limites. Mesmo após o encerramento do mangá original e de Dragon Ball Z, a franquia continuou retornando ao mesmo ponto central. Até que um projeto ousou fazer a pergunta que parecia proibida: e se ele não estivesse mais lá?
O futuro distante que quase ninguém conheceu
Ao longo das décadas, Dragon Ball ganhou continuações, filmes, especiais e novas séries. No entanto, quase todas mantiveram a mesma estrutura narrativa: o herói como eixo absoluto da história. Mesmo quando o foco parecia mudar, a trama inevitavelmente voltava para ele.
Mas houve um momento em que a franquia decidiu experimentar algo diferente. Um salto temporal ousado levou o universo oficial para mais de dois séculos à frente da despedida vista em Dragon Ball Z. Era o ano 1000 do calendário da saga. O mundo havia mudado. A sociedade evoluído. E o antigo salvador da Terra já fazia parte do passado.
Esse projeto não foi uma produção paralela qualquer. Diferente de outras iniciativas com participação limitada do criador, aqui houve supervisão direta de Akira Toriyama. O autor colaborou no design de personagens, no estilo artístico e nas bases narrativas. Não se tratava apenas de um derivado comercial, mas de uma expansão legítima daquele universo.
A ambição era grande. O desenvolvimento envolveu estúdios da Ásia e o próprio Bird Studio. A proposta era transformar os jogadores nos novos protagonistas de uma era inédita, em um mundo onde as esferas do dragão já não estavam ativas e o legado dos antigos guerreiros sobrevivia apenas como história.
Um mundo que continuou sem seu maior símbolo
Nesse futuro distante, a Terra se tornara um ponto de encontro entre diferentes raças. Humanos, namekuseijins e descendentes saiyajins conviviam em relativa harmonia. As artes marciais permaneciam como elemento central da cultura, ensinadas em escolas que preservavam a memória dos antigos heróis.
Sem a presença constante do protagonista clássico, o foco narrativo mudava completamente. Cada jogador podia criar seu próprio guerreiro e trilhar caminhos inéditos, enfrentando ameaças que ampliavam a mitologia original. O bastão havia sido passado para uma nova geração.
Um dos aspectos mais elogiados por quem teve acesso ao projeto foi o cuidado com a cronologia. O salto no tempo não ignorava os acontecimentos anteriores. Pelo contrário: explicava como o mundo evoluiu após os eventos finais de Dragon Ball Z, criando uma linha histórica coerente.
Apesar da proposta inovadora, o jogo nunca foi lançado globalmente. Restrito a mercados asiáticos, teve vida relativamente curta e encerrou suas atividades em 2013. Ainda assim, suas ideias não desapareceram. Conceitos e personagens introduzidos ali ressurgiram mais tarde em títulos como Dragon Ball Xenoverse e Super Dragon Ball Heroes.
Para muitos fãs brasileiros, trata-se quase de uma lenda dentro da franquia: um capítulo oficial que poucos puderam experimentar. Mais do que um simples MMORPG, foi um experimento narrativo que provou algo fundamental — o universo de Dragon Ball poderia sobreviver sem depender eternamente do mesmo herói.
Talvez esse seja seu legado mais interessante. Não a ausência do protagonista, mas a confirmação de que sua influência era grande o bastante para permitir que outros assumissem o protagonismo.