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Ciência

A demência em cães apresenta semelhanças com o Alzheimer humano, revela nova pesquisa

Uma pesquisa identificou semelhanças surpreendentes entre alterações cerebrais de cães idosos e de pessoas com demência. A descoberta abre possibilidades para investigar sinais precoces da doença.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quem convive com um cachorro idoso pode perceber mudanças que vão além da redução da energia ou da dificuldade para se movimentar. Alguns animais começam a se perder em ambientes conhecidos, apresentam alterações no sono ou deixam de reconhecer rotinas familiares. Durante muito tempo, esses comportamentos foram associados principalmente ao envelhecimento. Agora, cientistas descobriram que certas mudanças podem esconder processos cerebrais semelhantes aos observados em uma das doenças neurológicas mais estudadas do mundo.

Cães idosos podem desenvolver alterações semelhantes às do Alzheimer

Uma pesquisa liderada por Julie Moreno, da Universidade Estadual do Colorado, nos Estados Unidos, identificou semelhanças importantes entre o cérebro de cães com deterioração cognitiva e o de pessoas diagnosticadas com Alzheimer.

O estudo, publicado na revista científica npj Dementia, analisou alterações relacionadas ao envelhecimento cerebral e à acumulação anormal de proteínas.

Assim como os humanos, os cães podem desenvolver uma condição conhecida como síndrome da disfunção cognitiva canina.

O transtorno provoca mudanças comportamentais que incluem desorientação, dificuldades de memória, alterações nos ciclos de sono e menor capacidade de reconhecer ambientes familiares.

Segundo os pesquisadores, mais de 25% dos cães com idade superior a 12 anos podem apresentar essa condição.

Para investigar os mecanismos envolvidos, a equipe examinou amostras cerebrais doadas por tutores após a morte de seus animais.

Esses tecidos foram comparados com amostras de pessoas que haviam desenvolvido Alzheimer.

Os resultados revelaram depósitos anormais de proteínas em regiões cerebrais semelhantes às afetadas durante a doença humana.

A descoberta sugere que o envelhecimento neurológico das duas espécies pode compartilhar determinados processos biológicos.

Entretanto, isso não significa que a demência canina seja exatamente igual ao Alzheimer.

Por que estudar cachorros pode revelar pistas que os ratos não oferecem?

Durante décadas, os ratos desempenharam um papel central nas pesquisas sobre doenças neurodegenerativas.

Entretanto, esses animais não desenvolvem espontaneamente todas as alterações cerebrais características do Alzheimer humano.

Por isso, muitos experimentos dependem de modificações genéticas para reproduzir aspectos específicos da doença.

Os cães apresentam uma diferença importante: podem desenvolver deterioração cognitiva naturalmente, conforme envelhecem.

Além disso, compartilham o ambiente doméstico com seus tutores, estando expostos a fatores ambientais e hábitos que podem influenciar o envelhecimento.

Essa combinação permite investigar processos neurológicos em condições mais próximas da vida cotidiana.

Outro aspecto relevante é que os cães apresentam grande diversidade genética, de tamanho e de expectativa de vida.

Essas diferenças podem ajudar os pesquisadores a compreender por que determinados indivíduos desenvolvem problemas cognitivos enquanto outros permanecem relativamente saudáveis.

Ainda assim, os modelos caninos não substituem completamente outras abordagens científicas.

Cada espécie apresenta particularidades, e os resultados precisam ser cuidadosamente avaliados antes de qualquer aplicação na medicina humana.

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© Jack Plant – Unsplash

Uma proteína pode ajudar a identificar alterações cerebrais por exames de sangue

Entre os resultados mais interessantes da pesquisa está a identificação de uma possível relação com a proteína GFAP, sigla em inglês para proteína glial fibrilar ácida.

Essa substância está associada principalmente aos astrócitos, células que desempenham funções importantes no sistema nervoso.

Os pesquisadores observaram que cães com maior acúmulo de proteínas anormais no cérebro também apresentavam níveis elevados de GFAP.

A associação sugere que essa molécula pode ajudar a identificar processos relacionados à deterioração neurológica.

No futuro, sua medição por exames de sangue poderia contribuir para pesquisas sobre o acompanhamento do envelhecimento cerebral.

Entretanto, a GFAP ainda não pode ser considerada um teste definitivo para diagnosticar demência em cães.

Níveis elevados podem ocorrer em diferentes condições neurológicas, e novos estudos serão necessários para determinar sua precisão.

A descoberta é promissora justamente porque identificar alterações antes do agravamento dos sintomas representa um dos grandes desafios das pesquisas sobre doenças neurodegenerativas.

O que essa descoberta significa para o futuro do tratamento do Alzheimer?

A investigação está relacionada ao Dog Aging Project, iniciativa científica dedicada ao estudo do envelhecimento de mais de 50 mil cães domésticos.

O projeto reúne informações genéticas, ambientais e clínicas para compreender os fatores que influenciam a saúde dos animais ao longo da vida.

Esses dados podem ajudar a identificar padrões associados ao deterioramento cognitivo e investigar possíveis estratégias de prevenção e tratamento.

No caso do Alzheimer humano, compreender melhor os mecanismos iniciais da doença é fundamental para desenvolver intervenções mais eficazes.

Entretanto, a descoberta não representa uma cura nem demonstra que tratamentos desenvolvidos para cães funcionarão necessariamente em pessoas.

O Alzheimer continua sem cura definitiva, embora existam tratamentos capazes de aliviar sintomas ou, em determinados pacientes, retardar parte da progressão da doença.

O principal avanço está na possibilidade de estudar alterações cerebrais que surgem naturalmente durante o envelhecimento.

Os cães podem se tornar aliados importantes da pesquisa sobre Alzheimer porque apresentam mudanças neurológicas semelhantes às humanas e compartilham muitos aspectos do nosso ambiente.

Assim, compreender melhor o envelhecimento de nossos companheiros de quatro patas pode beneficiar tanto a medicina veterinária quanto a investigação de doenças que afetam milhões de pessoas.

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