Quem deixou o cachorro sair? Boa pergunta. Hoje, os pesquisadores estão mais próximos de entender como os canídeos se tornaram companheiros da humanidade.
A história da domesticação dos cães é pouco reveladora, pois os humanos convivem com esses animais peludos há milhares de anos, mas é difícil precisar quando começaram a domesticá-los. Um estudo publicado na Science Advances analisou 76 fósseis de canídeos antigos encontrados na região da Beringia, oferecendo novos indícios sobre os momentos iniciais dessa relação.
Uma relação mais complexa do que parece
“Acreditava-se, em geral, que a domesticação aconteceu de uma só vez, separando claramente os canídeos que interagiam com humanos (os cães) dos que não interagiam (os lobos)”, explicou François Lanoë, arqueólogo da Universidade do Arizona e principal autor do estudo, em um e-mail ao Gizmodo. “Nosso estudo indica que as relações entre canídeos e humanos foram complexas e continuam sendo até hoje. Elas envolvem mais do que apenas domesticação, incluindo processos como domesticação de lobos selvagens e comensalismo (quando os lobos se aproximavam dos assentamentos humanos em busca de alimento).”

Como começou a relação entre humanos e cães
A domesticação ocorreu em diferentes graus, locais e períodos ao longo da pré-história. Estudos anteriores sugerem que os humanos pré-históricos utilizavam cães como parceiros de caça, enquanto outros canídeos eram atraídos pelos restos de alimentos e pilhas de lixo humano.
No novo estudo, a equipe analisou 76 espécimes de canídeos — incluindo cães, híbridos de cães e lobos, além de lobos e coiotes — provenientes de locais do final do Pleistoceno e início do Holoceno, no interior do Alasca. Também foram incluídos restos de lobos modernos do Alasca nos estudos genômicos e morfológicos.
Os resultados mostraram que alguns dos canídeos antigos, especialmente em áreas fluviais, consumiam mais salmão do que outros. Alguns animais analisados apresentaram dietas que incluíam peixes e outros animais, sugerindo uma relação de dependência com humanos.
“Essa é uma evidência importante, porque canídeos selvagens não pescam salmão sozinhos”, disse Ben Potter, arqueólogo da Universidade do Alasca Fairbanks, em um comunicado. “Isso nos leva à pergunta existencial: o que é um cachorro?”
A continuidade do legado genético
Embora a domesticação tenha dado origem a raças modernas tão diferentes quanto o chihuahua e o dogue alemão, alguns cães atuais se assemelham muito a seus ancestrais. Em 2020, um estudo revelou que cães de trenó possuem um legado genético contínuo desde o final da última era do gelo.
Como canídeos selvagens antigos não caçavam salmão, o consumo desse peixe indica o momento em que alguns animais começaram a se aproximar e depender dos humanos. O recente estudo dietário oferece uma abordagem inteligente para responder à pergunta sobre o início da domesticação.
No final das contas, somos humanos, e quem poderia resistir ao olhar de um filhote pedindo comida?