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Ciência

A floresta que virou deserto: as imagens impressionantes que mostram o novo rosto da Amazônia

Um fotógrafo premiado capturou uma realidade difícil de acreditar: barcos encalhados, casas flutuantes presas na terra seca e rios que viraram caminhos poeirentos. A premiada série fotográfica revela um alerta claro sobre o que está por vir — e o que já está acontecendo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Amazônia, o maior ecossistema tropical do mundo, já não é a mesma. O que antes era um rio caudaloso, hoje parece um deserto. Essa foi a sensação que o fotógrafo peruano-mexicano Musuk Nolte experimentou ao documentar a seca extrema em Manaus, no Brasil. Com um olhar sensível e comprometido, ele transformou o desastre ambiental em uma narrativa visual que lhe rendeu o prêmio World Press Photo 2025 na categoria Histórias, América do Sul.

Caminhando onde antes havia água

Uma das imagens mais impactantes da série mostra três pescadores caminhando por dois quilômetros sobre bancos de areia no leito seco do rio Solimões, em plena Amazônia brasileira. A temperatura beirava os 40 graus, e o que antes era um rio navegável, agora era um caminho árido. Em outubro de 2024, quando Nolte capturou essa cena, o Solimões havia recuado tanto que os pescadores precisavam caminhar 45 minutos para chegar às suas casas, antes acessíveis diretamente por barco.

“O que me marcou foi a escala humana diante de um território tão vasto”, conta o fotógrafo. Para ele, essa imagem aérea representa não só a crise ambiental mas a fragilidade da presença humana diante das forças da natureza.

Um deserto no coração da floresta

Desierto
© X/@Cbecerrilv vía Musuk Nolte

Musuk Nolte já atua há 18 anos na fotografia documental, com foco em memória histórica, comunidades indígenas e mudanças climáticas. Seu projeto “Geografia da Água” investiga, em diferentes altitudes, a crise hídrica no Peru e na América do Sul. Após documentar a seca em Iquitos, no Peru, decidiu atravessar a fronteira para Manaus, onde a situação era ainda mais dramática.

Mesmo tendo acompanhado o recuo das águas pelos dados, ao chegar à região, ficou chocado com o que viu. “Parece um deserto. Mas quando se entende que se está na Amazônia, algo não faz sentido. É como viver uma transformação radical do planeta”, diz.

A vida suspensa com o sumiço da água

Com apoio de uma bolsa da Bertha Foundation, Nolte passou cerca de um mês registrando a seca mais severa desde 1902, segundo dados oficiais. Em Manaus, mais de 480 mil pessoas foram afetadas. Pequenos rios tornaram-se intransitáveis, comunidades ficaram sem água potável, comida e acesso ao transporte. Doentes não conseguiam ser levados aos hospitais, e famílias cogitavam abandonar suas casas.

A Defesa Civil do estado do Amazonas informou que a profundidade do Solimões chegou a apenas três metros. Segundo a Unicef, mais de 420 mil crianças do Brasil, Peru e Colômbia foram privadas de acesso à alimentação, água e educação por conta da seca. E, no total, mais de 47 milhões de pessoas foram impactadas na bacia amazônica, segundo relatório do CIIFEN.

Cicatrizes visíveis de uma crise anunciada

A primeira foto da série premiada mostra um jovem carregando comida para sua mãe em Manacapuru. Ele caminha por um trecho que antes era navegável. Em uma imagem aérea, vê-se os rastros deixados por barcos encalhados, traços que Nolte descreve como “cicatrizes no território”. Casas que antes flutuavam estão agora presas ao solo seco.

As chuvas retornaram após a passagem do fotógrafo, e o rio hoje está em fase de cheia. No entanto, para Nolte, o valor do prêmio está na visibilidade que confere a histórias urgentes: “Me interessa buscar extremos onde se possa mostrar o que já está acontecendo e o que vai acontecer cada vez mais”, afirma.

Água: a linha que conecta tudo

O projeto “Geografia da Água” já retratou crises em diversos pontos da América do Sul: a falta de água durante a pandemia em Lima, a seca no lago Titicaca, as enchentes na região amazônica de Ucayali, e até um vazamento de petróleo no litoral peruano — com o qual o fotógrafo venceu o World Press Photo em 2023.

“A água conecta os territórios”, afirma. “Na escola, aprendemos sobre o ciclo da água, mas esquecemos que, ao abrir a torneira, essa água passou por montanhas, rios, mares… Não é algo automático. Precisamos entender e cuidar dessa conexão”.

Com imagens que parecem saídas de uma distopia, o trabalho de Musuk Nolte não só denuncia os efeitos da crise climática, como também convida à reflexão: até quando o planeta suportará tanta transformação sem resposta?

 

Fonte: El País 

 

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