A corrida global pela inteligência artificial não acontece apenas nos laboratórios ou nos chips de última geração. Ela também depende de algo muito mais básico: energia. E muita energia. Os data centers que sustentam modelos avançados de IA estão pressionando redes elétricas inteiras, elevando custos e forçando governos e empresas a buscar soluções emergenciais. Algumas delas parecem saídas da indústria aeronáutica — literalmente.
O consumo energético da IA está dobrando em poucos anos
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers devem consumir cerca de 448 terawatts-hora em 2025. Até 2030, esse número pode saltar para 980 terawatts-hora. É praticamente dobrar a demanda em cinco anos.
Esse crescimento já provoca efeitos em cadeia. O mercado de memória DRAM sente a pressão, construtoras disputam terrenos para novos centros de dados e, principalmente, o setor elétrico entra em alerta. Em regiões como os Estados Unidos, a expansão da IA já começa a influenciar decisões estratégicas sobre geração de energia.
Um exemplo simbólico é a reativação da usina nuclear de Three Mile Island, na Pensilvânia, palco do mais grave acidente nuclear da história dos EUA. A iniciativa, ligada à Microsoft, mostra até onde vai a busca por fontes capazes de sustentar a nova economia digital.
Motores de avião viram turbinas para data centers

Mas nem todas as soluções envolvem usinas nucleares ou grandes hidrelétricas. Nos últimos meses, ganhou força uma alternativa mais imediata: converter motores a jato aposentados em turbinas de geração elétrica.
Empresas como a FTAI Aviation criaram divisões específicas para transformar motores CFM56 — amplamente usados em aviões como o Boeing 737 e o Airbus A320 — em geradores para data centers. O movimento deixou de ser pontual e passou a representar um novo nicho de mercado.
Outras companhias, como a ProEnergy, também estão adaptando motores CF6 para produzir até 48 megawatts por unidade. Em alguns casos, projetos já somam mais de 1 gigawatt de capacidade instalada. A proposta é simples: instalar essas turbinas diretamente ao lado dos centros de dados, garantindo fornecimento rápido enquanto a conexão definitiva à rede elétrica não fica pronta.
A própria Energy Information Administration (EIA), dos Estados Unidos, mencionou a possibilidade de reaproveitar motores de aeronaves militares aposentadas. Segundo estimativas, essa frota poderia representar até 40 mil megawatts adicionais — algo equivalente a cerca de 10% da capacidade de geração do estado do Arizona.
Por que essa solução se espalhou tão rápido?

A principal vantagem dessas turbinas é a velocidade. Enquanto a construção de novas usinas pode levar anos, motores convertidos podem ser instalados em semanas ou poucos meses. Em um setor onde atrasos significam perda de competitividade, isso pesa muito.
Além disso, trata-se de tecnologia madura, usada há décadas na aviação. A confiabilidade é alta, e os equipamentos podem depois ser revendidos ou reaproveitados como sistemas de backup.
Mas o custo é elevado. Segundo análises da consultoria Lazard, turbinas aeroderivadas podem custar entre US$ 149 e US$ 251 por megawatt-hora nos EUA. Para comparação, ciclos combinados de gás natural ficam entre US$ 48 e US$ 109. Energia solar e eólica onshore são ainda mais baratas.
Há também o impacto ambiental. Motores adaptados emitem mais poluentes do que fontes renováveis e até mesmo que algumas térmicas modernas. Por isso, especialistas veem a estratégia como uma “energia ponte” válida por cinco a sete anos, até que novas infraestruturas entrem em operação.
E as companhias aéreas, saem prejudicadas?

Em um momento em que fabricantes enfrentam gargalos na produção de motores novos, surge a dúvida: isso pode afetar as companhias aéreas?
Analistas indicam que, por enquanto, não. Os motores usados para conversão são, em geral, unidades antigas ou fora de serviço comercial. Não competem diretamente com a demanda por motores novos, que continuam escassos por causa de problemas na cadeia global de suprimentos.
O risco existiria apenas se o modelo se tornasse permanente e passasse a demandar equipamentos mais modernos. Até lá, trata-se de um remendo — eficiente, caro e poluente — para sustentar a fome energética da inteligência artificial.
A revolução da IA promete transformar o mundo. Mas, por trás dos algoritmos, existe uma corrida silenciosa por megawatts. E, nesse cenário, até motores de avião encontram um novo destino em solo firme.
[ Fonte: El Economista ]