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A indústria de anime precisa parar de tentar fazer Rurouni Kenshin acontecer de novo

Rurouni Kenshin é o exemplo perfeito do dilema de separar a arte do artista no mundo dos animes.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Aviso: A matéria a seguir discute crimes relacionados ao abuso infantil que podem ser perturbadores para alguns leitores.

Assim como acontece em Hollywood e na indústria de games, o mundo dos animes frequentemente recorre a sucessos antigos, refazendo-os para um novo público, com resultados variados. Já vimos isso diversas vezes com séries como Dragon Ball Z Kai, Hunter x Hunter e Ranma ½, que ganharam versões refeitas e otimizadas. Embora os remakes de animes geralmente tenham um desempenho melhor do que em outras mídias, o projeto mais problemático da indústria tem sido a insistência em tentar reviver a clássica série samurai Rurouni Kenshin.

Criada pelo mangaká Nobuhiro Watsuki, Rurouni Kenshin é uma série shonen de ação histórica que acompanha o samurai errante Kenshin Himura, que abandona seu passado como assassino revolucionário temido para se tornar um andarilho pacífico. Desde seu lançamento como mangá em 1994, a série gerou um anime produzido pelos estúdios Gallop e Deen, tornando-se uma obra fundamental no universo shonen ao lado de contemporâneos como Yu Yu Hakusho. Esse sucesso continuou até o fim da série na Weekly Shonen Jump em 1999 e o final do anime em 1998. Embora a história de Rurouni Kenshin seja considerada uma das mais memoráveis do anime, até gerando uma trilogia de cinco filmes live-action estrelados por Mackenyu Arata (de One Piece da Netflix), o envolvimento de seu autor em um escândalo arruinou a reputação da obra, especialmente entre os fãs dos EUA.

Em fevereiro de 2018, Watsuki foi multado em 200.000 ienes (cerca de US$ 1.900) por posse de centenas de DVDs de pornografia infantil. De acordo com o Anime News Network, a posse de pornografia infantil no Japão pode resultar em até um ano de prisão, uma multa de um milhão de ienes ou ambos. Na época, a editora Shueisha afirmou levar a acusação a sério e colocou o mangá Rurouni Kenshin: Hokkaido Arc, escrito por Watsuki e sua esposa Kaoru Kurosaki, em hiato. No entanto, apenas quatro meses depois, a Shueisha retomou a publicação da série, alegando que a decisão foi tomada para atender ao desejo dos fãs, o que consideravam um dever.

Embora a série tenha sido retomada no Japão, com Watsuki declarando estar vivendo uma vida de reflexão e arrependimento, Rurouni Kenshin: Hokkaido Arc não recebeu novos capítulos na edição em inglês da Viz Media. Isso mudou quando o estúdio de anime Liden Films anunciou uma adaptação do arco no Jump Festa 2022. Atualmente, o anime está sendo transmitido pela Crunchyroll.

O problema recorrente da indústria de anime

Infelizmente, controvérsias como essa não são incomuns na indústria de anime. Casos anteriores incluem o autor de Toriko, Mitsutoshi Shimabukuro, que foi preso e condenado por prostituição infantil em 2002 (sua sentença de dois anos foi suspensa, evitando tempo na prisão); o escritor de Act Age, Tatsuya Matsuki, que recebeu uma sentença de 18 meses por comportamento indecente com um menor (também suspensa por bom comportamento); e dubladores renomados como Toru Furuya, de One Piece, que renunciou após admitir um caso extraconjugal e abuso físico de uma fã.

Apesar da existência de debates sobre o dilema de separar a arte do artista e sobre os limites do arrependimento, o fato de Rurouni Kenshin continuar em evidência na indústria de anime após a leve penalização de Watsuki por posse de pornografia infantil permanece como um dos paradoxos mais estranhos do setor. Em outros países, os desdobramentos desses casos geralmente resultam em punições sociais severas, consideradas suficientes. No entanto, o sucesso de Rurouni Kenshin como série shonen impediu seu cancelamento, diferentemente de outras obras contemporâneas.

Impacto no público e na indústria

Essa situação levou fãs mais experientes a aconselharem novos espectadores a não apoiarem a série, apesar de empresas como Aniplex, Shueisha e Crunchyroll promoverem Rurouni Kenshin com o mesmo entusiasmo dedicado a outros remakes, usando campanhas nas redes sociais e banners em convenções. Esse tipo de promoção enfraquece o aspecto da vergonha social como forma de punição quando uma série recebe tanta atenção, apesar da controvérsia envolvendo seu criador.

A indústria de anime estaria melhor se Rurouni Kenshin tivesse permanecido no passado, em vez de tentar forçar seu retorno à relevância.

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