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Ciência

A Lua também treme — e seus terremotos lunares revelam que nosso satélite está encolhendo e ainda é geologicamente ativo

Durante décadas, acreditamos que a Lua era um mundo frio e imóvel. Mas sensores deixados pelas missões Apollo revelaram algo diferente: ela sofre terremotos — alguns fortes e longos. Esses abalos mostram que o satélite está encolhendo, que a gravidade da Terra o deforma e que sua história interna ainda está em movimento.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Lua parece silenciosa quando a observamos no céu. Sem placas tectônicas, sem vulcões ativos visíveis, sem atmosfera espessa. Durante muito tempo, foi considerada um corpo geologicamente “morto”. Só que os dados contam outra história. Desde 1969, instrumentos instalados por astronautas na superfície lunar registraram tremores que desafiam essa visão estática — e revelam um interior mais dinâmico do que imaginávamos.

O que são os terremotos lunares

Lunar Agua
© NASA’s Scientific Visualization Studio

Os chamados terremotos lunares, também conhecidos como sismos lunares, são abalos sísmicos que ocorrem na Lua. Eles foram detectados por sismômetros instalados durante as missões Apollo 11, 12, 14, 15 e 16, entre 1969 e 1977.

Os registros mostraram tremores com magnitude entre 2 e 5 na escala Richter — e alguns podem chegar a 5,5. O mais surpreendente, porém, é a duração: certos abalos podem persistir por mais de dez minutos. Na Terra, terremotos dessa magnitude geralmente duram muito menos.

Isso acontece porque a Lua é extremamente seca e rígida. Sem água e com uma estrutura interna menos fragmentada que a terrestre, as ondas sísmicas se propagam por mais tempo, “ecoando” pelo interior lunar.

Nem todos os tremores têm a mesma origem

A NASA classifica os terremotos lunares em diferentes categorias.

Os sismos profundos ocorrem a centenas de quilômetros abaixo da superfície e estão ligados às forças de maré provocadas pela gravidade da Terra. Nosso planeta exerce uma atração constante que deforma levemente o interior lunar.

Há também os sismos associados ao resfriamento. A Lua vem esfriando há bilhões de anos — e, ao esfriar, encolhe. Essa contração gera tensões internas que provocam fraturas na crosta.

Os impactos de meteoritos são outra fonte de tremores. Sem uma atmosfera densa para protegê-la, a Lua é constantemente atingida por rochas espaciais.

Por fim, existem abalos extremamente superficiais causados pelas variações brutais de temperatura entre o dia e a noite lunar. A expansão e contração térmica das rochas gera estresse suficiente para produzir pequenos sismos.

A Lua está encolhendo — e isso deixa cicatrizes

Um Experimento Chinês Conseguiu O Impensável Disparar Um Raio Laser Da Terra Que Atingiu Um Satélite Em órbita Lunar E Retornou Em Frações De Segundo — Tudo Isso Em Plena Luz Do Dia.
© Elena11 – shutterstock

Um dos achados mais importantes das últimas décadas é que a Lua está encolhendo gradualmente. Estimativas indicam que seu diâmetro diminuiu cerca de 50 metros ao longo das últimas centenas de milhões de anos.

Essa redução provoca a formação de falhas de empurrão, estruturas em que um bloco da crosta desliza sobre outro. Na superfície, elas aparecem como pequenas escarpas em formato de degraus.

Em 2019, o cientista William Steigerwald, da NASA, afirmou que análises recentes forneceram as primeiras evidências de que essas falhas ainda estão ativas — e provavelmente continuam gerando terremotos lunares atualmente.

Imagens da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter revelaram mais de 3.500 dessas escarpas espalhadas pela superfície, algumas com sinais de deslizamentos recentes.

A gravidade da Terra também faz a Lua tremer

A Terra tem cerca de 80 vezes a massa da Lua. Essa diferença colossal significa que sua influência gravitacional é decisiva.

Estudos liderados por Thomas Watters, do Smithsonian Institution, reexaminaram dados sísmicos das missões Apollo e localizaram com maior precisão 28 sismos superficiais. Oito deles ocorreram a menos de 30 quilômetros de falhas visíveis na superfície.

Um detalhe chama atenção: seis desses tremores aconteceram quando a Lua estava no apogeu, fase em que o estresse gravitacional favorece o deslizamento das falhas. Isso reforça a ideia de que as marés sólidas provocadas pela Terra desempenham papel central na atividade sísmica lunar.

O que isso significa para o futuro da exploração

Apesar de sua intensidade, os terremotos lunares não têm qualquer impacto sobre os terremotos na Terra. São fenômenos próprios da dinâmica interna do satélite.

Mas entendê-los é fundamental para o futuro. Com o retorno planejado de missões tripuladas e a possibilidade de bases permanentes na Lua, cientistas defendem a instalação de uma nova rede de sismômetros para mapear melhor os riscos.

A sismóloga Renee Weber, da NASA, já destacou a importância de avaliar o potencial perigo desses abalos para futuras estruturas humanas.

Mais do que isso, o estudo dos terremotos lunares ajuda a compreender a evolução de outros corpos rochosos do Sistema Solar, como Mercúrio, que apresenta sinais de contração ainda mais intensa.

A Lua pode parecer imóvel à distância. Mas sob sua superfície silenciosa, ela continua se ajustando, fraturando e respondendo às forças que a moldaram — lembrando que mesmo os mundos aparentemente estáticos ainda guardam movimentos invisíveis.

 

[ Fonte: La Nación ]

 

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