Para quem cresceu nos anos 1980 e 1990, a sensação é estranha: a MTV — um canal que literalmente se chamava Music Television — já não passa música na TV. Essa constatação ganhou um ponto final simbólico na virada do ano, quando os últimos canais musicais da emissora foram encerrados no Reino Unido, na Austrália e em outros países. O que restou foi um nome poderoso, esvaziado do propósito original.
Mas a nostalgia raramente aceita um ponto final definitivo. Na mesma semana, surgiu o MTV Rewind, um site que tenta recriar a experiência da MTV antes dos realities, agregando videoclipes do YouTube em uma programação contínua que lembra ligar a TV e aceitar o que viesse a seguir.
Não é só “dar play” no YouTube
À primeira vista, a ideia pode parecer redundante. Afinal, basta digitar “MTV music” no YouTube, escolher um clipe e deixar o autoplay trabalhar. Na prática, porém, a experiência é outra. O algoritmo rapidamente abandona o pedido inicial e passa a empurrar o que acha que você quer ver.
No meu caso — e no de muita gente — isso costuma terminar em Radiohead tocando In the Basement. É ótimo, claro, mas também é previsível. E a MTV original nunca foi previsível desse jeito.
O MTV Rewind elimina o algoritmo. Os vídeos são escolhidos de forma aleatória, sem personalização, sem otimização de engajamento. Isso pode ser frustrante — ninguém é obrigado a gostar de Sublime —, mas é justamente o que torna a experiência mais fiel à de sentar no sofá em 1989 e deixar a TV decidir.
Como bônus, o site ainda dribla a enxurrada de anúncios do YouTube, algo que por si só já soa quase revolucionário.
Um projeto rápido, exausto e “punk”
O criador do MTV Rewind atende pelo apelido Flexasaurus Rex. Em postagens na Farcaster, ele contou que começou o projeto no fim de semana anterior ao lançamento, com a ideia de recriar “uma instituição cultural que mudou a música, a moda e a cultura jovem”.
Quarenta e oito horas depois, o site estava no ar. “Estou quebrado, exausto e me sentindo mal, mas milhares de pessoas estão usando”, escreveu. No dia seguinte, com mais cafeína no sistema, foi ainda mais direto: descreveu o projeto como “punk rock pra caralho”, um gesto obsceno contra manipulação algorítmica, conteúdo movido a anúncios, extração de dados e monopólios corporativos do streaming.
A ironia histórica da MTV
Há uma ironia deliciosa nisso tudo. No auge, a MTV foi uma potência cultural, mas também um alvo constante de críticas. Muitos a viam como símbolo da homogeneização corporativa da cultura pop. Pouco após o lançamento, David Bowie denunciou publicamente a falta de artistas negros na programação — um momento hoje amplamente compartilhado… no canal do YouTube da MTV News.
A trajetória lembra a famosa frase de Harvey Dent: ou você morre como herói ou vive o suficiente para se tornar vilão. No caso da MTV, viver ainda mais a transformou novamente em heroína — desta vez, como lembrança nostálgica de um tempo em que a música parecia mais espontânea e menos calculada.
Um acervo maior do que a MTV real
Atualmente, o MTV Rewind reúne 33.478 vídeos, organizados em dez “canais”. Há seleções por década, além de marcas clássicas como MTV Unplugged, Headbangers’ Ball e Yo! MTV Raps — este último, menos cafona do que o nome sugere.
Curiosamente, isso também melhora a experiência. Na MTV original, o espectador via uma rotação de talvez 30 clipes ao longo do dia. Aqui, o repertório é vasto o suficiente para surpreender de verdade.
A MTV como canal musical pode estar oficialmente morta. Mas sua versão zumbi — sem algoritmo, sem anúncios e sem saber o que vem depois — talvez seja a forma mais honesta de mantê-la viva.