Por enquanto, ele dorme tranquilo — mas não para sempre. O Sagitário A*, o buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea, tem estado em silêncio por milhares de anos. Agora, cientistas preveem o momento em que ele “acordará” de novo, quando uma galáxia vizinha colidir com a nossa. A reativação promete transformar o coração da galáxia em um espetáculo luminoso de proporções cósmicas.
O coração adormecido da Via Láctea

Sagitário A* é o buraco negro supermassivo mais próximo da Terra. Localizado a 25 mil anos-luz de nós, ele tem uma massa cerca de quatro milhões de vezes maior que a do Sol. Segundo a NASA, trata-se de um gigante calmo — sua emissão de energia é centenas de vezes menor que a de outros buracos negros mais ativos do universo.
Em 2020, os pesquisadores Roger Penrose, Reinhard Genzel e Andrea Ghez receberam o Nobel de Física por seus estudos sobre esse objeto enigmático. A importância do Sagitário A* vai muito além da curiosidade científica: entender seu comportamento é entender o próprio destino da Via Láctea.
A colisão que mudará tudo
O “despertar” de Sagitário A* deverá ocorrer quando a Via Láctea colidir com a Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia anã que orbita a nossa e está atualmente a cerca de 200 mil anos-luz de distância. O encontro, segundo astrônomos, acontecerá em aproximadamente 2 bilhões de anos.
Durante a colisão, a força gravitacional enviará enormes quantidades de gás e poeira para o centro galáctico. Esse fluxo de matéria servirá de combustível para Sagitário A*, que voltará a devorar tudo ao seu redor e a emitir radiação intensa — transformando-se em um núcleo galáctico ativo, ou AGN.
O professor Carlos Frenk, da Universidade de Durham, tranquiliza: mesmo assim, a Terra estará a salvo. “A radiação de Sagitário A* não será poderosa o bastante para ameaçar a vida no planeta”, afirmou.
A visão do James Webb e a origem das galáxias
Enquanto o “despertar” do buraco negro é aguardado por gerações futuras, o Telescópio Espacial James Webb continua a revelar o passado. Um de seus achados mais notáveis é a galáxia The Sparkler, situada a nove bilhões de anos-luz. Ela se parece muito com o que a Via Láctea deve ter sido em sua juventude.
Segundo o astrônomo Aaron Romanowsky, da Universidade de São José, “o James Webb nos permite olhar para trás no tempo e observar como os aglomerados globulares e os buracos negros se formavam”. A Sparkler, com apenas 3% da massa da Via Láctea e rodeada por 24 aglomerados globulares, ajuda a entender como galáxias jovens evoluem e como seus buracos negros moldam essa transformação.
Quando o gigante acorda
A astrofísica Nathalie Degenaar, da Universidade de Amsterdã, explica que, ao “acordar”, um buraco negro começa a engolir gás e poeira em um disco de acreção, aquecendo o material a milhões de graus. O processo gera luz em várias frequências — do infravermelho aos raios X — e, muitas vezes, jatos de partículas que se estendem por milhares de anos-luz.
Apesar da distância de 26 mil anos-luz, parte dessa energia poderá ser detectada da Terra. Ainda assim, como lembra o astrofísico Joseph Michail, do Centro Harvard-Smithsonian, “a atmosfera e o campo magnético terrestre, além do próprio disco de gás da galáxia, absorverão grande parte dessa radiação”.
Ecos do passado cósmico
Não seria a primeira vez que Sagitário A* desperta. Observações do telescópio IXPE da NASA indicam que, há cerca de 200 anos, o buraco negro teve uma erupção menor. E há milhões de anos, ele pode ter liberado energia suficiente para criar as Burbujas de Fermi, imensas estruturas de gás que ainda hoje se estendem acima e abaixo do plano galáctico.
O futuro “renascimento” de Sagitário A* não será o fim da Terra, mas o início de um novo capítulo na história da Via Láctea. Como resume o professor Frenk, “as galáxias crescem junto com os buracos negros que abrigam — e o coração da nossa ainda tem muito a contar”.
[ Fonte: Ok Diario ]