No interior de Alagoas, uma área esquecida da Mata Atlântica começa a escrever uma nova história com o retorno de espécies que haviam desaparecido há décadas. Mais do que um projeto ambiental, a reintrodução desses animais representa um movimento de recuperação ecológica e cultural, unindo ciência, sociedade e natureza em torno de um mesmo propósito: fazer a floresta viver de novo — e com ela, todo um imaginário popular.
A restauração de um ecossistema ameaçado

Em janeiro deste ano, 20 papagaios-chauá voltaram a sobrevoar os céus de Coruripe, a pouco mais de 80 km de Maceió. Esses animais estavam extintos na região e foram reintroduzidos em uma reserva de mil hectares de Mata Atlântica. O objetivo do projeto é reconstruir o ecossistema local, devolvendo à floresta sua funcionalidade original com a presença de animais dispersores de sementes.
Espécies como o mutum-de-alagoas, jabutis e macucos também estão sendo preparados para retomar seu lugar na mata. A iniciativa faz parte do projeto ARCA, com apoio da Fapesp, e foi apresentada durante o Fórum Brasil-França sobre Florestas e Biodiversidade, realizado no Museu Nacional de História Natural de Paris.
Segundo Luís Fábio Silveira, coordenador do projeto e vice-diretor do Museu de Zoologia da USP, a ausência desses animais acelerava o colapso ecológico da área. Sem eles, a floresta não se regenerava naturalmente. A presença dos papagaios e jabutis permite que as sementes sejam espalhadas e novas árvores nasçam, criando um ciclo de sustentabilidade natural. “Estamos construindo um modelo que pode ser aplicado em outros fragmentos de Mata Atlântica”, afirmou Silveira.
Como a reserva foi criada em terras privadas
A formação da reserva florestal foi resultado de uma negociação complexa entre pesquisadores, ONGs, Ministério Público e os proprietários das terras, majoritariamente usinas de açúcar e álcool. Como a maioria dos fragmentos de floresta em Alagoas está em áreas privadas e não é grande o suficiente para virar parque nacional, a solução encontrada foi transformá-las em RPPNs — Reservas Particulares do Patrimônio Natural.
Esse tipo de unidade de conservação permite ao proprietário manter a posse da terra, desde que preserve a biodiversidade. Muitos empresários aceitaram a proposta ao perceber que isso contribuiria positivamente para os índices de ESG de suas empresas. Um obstáculo inicial foi o custo de registro em cartório, superado com apoio do MP, que conseguiu a isenção das taxas.
Graças ao projeto, já foram criados mais de 5 mil hectares de áreas protegidas, abrigando cerca de 80% dos animais endêmicos e ameaçados do estado. O impacto ambiental e simbólico desse processo tem sido profundo.
O caso emblemático do mutum-de-alagoas
Entre as espécies mais emblemáticas está o mutum-de-alagoas, uma ave terrestre de grande porte extinta da natureza há quatro décadas. Caçado intensamente, restaram apenas três exemplares vivos no início da década de 1990, resgatados por um criador particular. A partir deles, os pesquisadores iniciaram o programa de recuperação da espécie.
Em 2019, os primeiros seis mutuns foram soltos em uma reserva de mil hectares em Rio Largo, com mata contínua e conectada a outras áreas. As aves, mesmo criadas em cativeiro, mostraram capacidade de adaptação ao ambiente natural. Essa reintrodução foi uma das primeiras do tipo em todo o continente americano — comparável apenas ao retorno de uma espécie de corvo no Havaí.
Mais do que um experimento ecológico, o retorno do mutum gerou uma onda cultural: blocos carnavalescos, corridas temáticas e murais urbanos foram criados em homenagem à ave, que se tornou símbolo oficial do estado de Alagoas. A população passou a enxergar a espécie como parte do seu patrimônio, gerando orgulho e engajamento.
O papel essencial da comunidade
Esse envolvimento popular foi fundamental para o sucesso do projeto. Segundo Silveira, moradores da região agora atuam como guardiões das espécies reintroduzidas. Ao invés de capturar ou domesticar os animais, preferem vê-los livres na natureza. Vídeos feitos por habitantes locais mostram revoadas de papagaios-chauá e ajudam os cientistas a monitorar as aves.
Esse novo olhar para a fauna silvestre transforma não só a floresta, mas a própria cultura das comunidades ao redor. Crianças crescem conhecendo as espécies nativas, adultos redescobrem sua relação com o meio ambiente e o sentimento coletivo de pertencimento se fortalece.
O papagaio-chauá, por exemplo, passou por um processo rigoroso de aclimatação antes de ser solto. Durante dois anos, viveu em um viveiro alto no meio da mata, onde foi submetido a testes físicos e comportamentais, inclusive de reação a predadores. Cerca de dez aves que não passaram nesses testes seguem em cativeiro, mas o restante agora sobrevoa livremente a reserva.
Um modelo que pode inspirar outras regiões
Mais do que recuperar uma área isolada, o projeto ARCA tem como ambição servir de exemplo para outros fragmentos da Mata Atlântica espalhados pelo Brasil. A junção de ciência, política pública, articulação comunitária e iniciativa privada mostrou que é possível, sim, restaurar o equilíbrio ecológico mesmo em contextos complexos como o de Alagoas.
E talvez o maior feito até agora não seja apenas trazer os sons dos papagaios de volta à floresta, mas devolver à população a esperança e o orgulho de conviver com sua biodiversidade. A floresta, afinal, começa a se reerguer — e não está fazendo isso sozinha.
[Fonte: CNN Brasil]