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Ciência

A técnica japonesa que transformou uma árvore em uma verdadeira fábrica de madeira

Muito antes da preocupação com sustentabilidade ganhar força, uma antiga técnica japonesa já mostrava uma forma surpreendente de produzir madeira por décadas sem destruir a árvore que a originava.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A busca por formas mais sustentáveis de utilizar os recursos naturais costuma ser associada às tecnologias mais recentes. No entanto, algumas das soluções mais engenhosas surgiram há centenas de anos. Em uma região montanhosa do Japão, agricultores e especialistas em silvicultura desenvolveram um método capaz de transformar uma única árvore em uma fonte contínua de madeira de alta qualidade. O sistema atravessou séculos, ainda desperta curiosidade e revela como tradição e conhecimento podem caminhar juntos.

Uma árvore que continua viva mesmo depois de fornecer madeira por décadas

Nas montanhas ao norte de Kyoto, algumas árvores chamam atenção por sua aparência incomum. Sobre um tronco robusto surgem diversos caules longos, retos e perfeitamente alinhados, criando a impressão de que um pequeno bosque cresce sobre uma única árvore.

Esse método recebe o nome de daisugi e foi desenvolvido na região de Kitayama há cerca de 600 anos. Seu princípio é simples, mas exige enorme conhecimento técnico: em vez de derrubar completamente a árvore para aproveitar sua madeira, preserva-se sua base viva para que ela continue produzindo novos troncos ao longo do tempo.

Apesar de muitas vezes ser descrito como um sistema que produz madeira sem cortar árvores, a realidade é um pouco diferente. Os troncos superiores destinados ao uso comercial são efetivamente colhidos, porém o tronco principal e o sistema de raízes permanecem intactos. Isso permite que novos brotos cresçam e iniciem outro ciclo produtivo.

A técnica é aplicada ao sugi, conhecido como cedro-japonês (Cryptomeria japonica). O processo começa com a seleção de árvores adequadas, que passam por sucessivas podas para formar uma estrutura larga e resistente.

Depois dessa etapa, apenas alguns brotos são mantidos. Todos os galhos laterais são removidos para que esses novos caules cresçam totalmente retos, com poucos nós e excelente qualidade estrutural. O resultado lembra um enorme bonsai, embora sua finalidade nunca tenha sido decorativa.

Segundo registros da Agência Florestal do Japão, o método tradicional podia começar quando a árvore tinha entre 15 e 20 anos. Nessa fase, parte do tronco era cortada a aproximadamente um metro do solo, estimulando o surgimento de novos brotos que eram cuidadosamente conduzidos para crescer na vertical.

Quando atingiam o tamanho ideal, esses troncos eram retirados sem comprometer a sobrevivência da árvore. Logo depois, novos brotos eram selecionados e todo o processo recomeçava.

 

A tradição japonesa que ainda inspira práticas sustentáveis

O desenvolvimento do daisugi aconteceu durante o período Muromachi, entre os séculos XIV e XV, acompanhando o crescimento de Kyoto e a valorização da arquitetura tradicional japonesa.

Na época, construções associadas ao estilo sukiya, especialmente as famosas casas de chá, exigiam postes extremamente retos, finos e com acabamento impecável. A madeira produzida em Kitayama atendia exatamente a essas características e rapidamente conquistou grande prestígio.

As montanhas íngremes da região dificultavam o cultivo convencional de grandes florestas comerciais. O daisugi surgiu como uma alternativa inteligente para aumentar a produção de madeira sem exigir o plantio constante de novas árvores, concentrando diversos troncos utilizáveis sobre uma única base viva.

A madeira obtida era destinada principalmente à fabricação de pilares, vigas estreitas e elementos decorativos. Durante todo o crescimento, os caules recebiam podas frequentes para evitar imperfeições. Após a colheita, passavam por processos artesanais de retirada da casca, polimento e secagem, garantindo um acabamento altamente valorizado.

Documentos históricos da cidade de Kyoto indicam que um exemplar de daisugi com idade entre 100 e 200 anos pode sustentar aproximadamente 100 troncos ao longo de diferentes ciclos de produção. Isso não significa que todos sejam colhidos ao mesmo tempo, mas demonstra a extraordinária capacidade produtiva desse sistema.

Em 2017, a silvicultura tradicional de Kitayama e suas paisagens florestais foram reconhecidas como patrimônio florestal do Japão, valorizando séculos de conhecimento acumulado na gestão sustentável das florestas.

Embora o daisugi ofereça vantagens importantes, como a redução da necessidade de replantio e a preservação das raízes que estabilizam o solo, ele está longe de ser uma solução simples para o desmatamento global. O método exige décadas de formação, manutenção constante, mão de obra altamente especializada e uma demanda por madeira de características muito específicas.

Além disso, a diminuição do uso da arquitetura tradicional japonesa e o envelhecimento dos profissionais responsáveis pela técnica reduziram sua importância econômica.

Mesmo assim, o legado permanece atual. O daisugi demonstra que uma árvore não precisa encerrar sua contribuição após um único corte. Com planejamento, paciência e conhecimento, ela pode continuar produzindo madeira durante gerações, tornando-se um exemplo notável de manejo florestal sustentável criado muitos séculos antes de esse conceito ganhar destaque no mundo moderno.

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