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Ciência

A teletransportação quântica finalmente funcionou pela internet comum — e isso muda tudo o que sabíamos sobre redes do futuro

Pela primeira vez, cientistas conseguiram realizar teletransportação quântica usando a mesma fibra óptica que transporta dados da internet convencional. O experimento superou um dos maiores obstáculos da área — o ruído — e aproxima, como nunca antes, a ideia de uma internet quântica baseada na infraestrutura que já existe.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Teletransportação quântica sempre soou como algo distante, preso a laboratórios isolados e cabos exclusivos. Em 2025, isso mudou. Um experimento demonstrou que é possível teletransportar informação quântica por dezenas de quilômetros usando a própria internet de fibra óptica, sem interromper o tráfego normal de dados. O feito representa um avanço decisivo rumo a redes quânticas reais, escaláveis e integradas ao mundo atual.

O que foi teletransportado — e o que não foi

Teletransportar
© Freepik

Antes de tudo, é importante separar ciência de ficção científica. O experimento não transporta matéria nem objetos físicos. O que foi teletransportado é o estado quântico de um fóton, ou seja, a informação quântica que descreve esse fóton.

Esse processo não envolve o envio direto do fóton pelo cabo. Em vez disso, usa dois pilares da mecânica quântica: entrelaçamento e medições conjuntas. O estado quântico original é destruído em um ponto da rede e reconstruído em outro, a partir de correlações quânticas previamente estabelecidas. Nenhuma cópia é feita — um detalhe essencial para manter as leis da física intactas.

O experimento que parecia impossível

O trabalho foi liderado pelo engenheiro Prem Kumar, da Northwestern University. A equipe conseguiu teletransportar o estado quântico de um fóton ao longo de 30,2 quilômetros de fibra óptica, enquanto, no mesmo cabo, trafegavam dados clássicos a 400 gigabits por segundo.

Até pouco tempo atrás, esse cenário era considerado inviável. O motivo é simples: sinais clássicos de alta potência geram ruído suficiente para “afogar” sinais quânticos extremamente frágeis. Demonstrar que ambos podem coexistir na mesma fibra é o grande salto deste estudo.

O inimigo invisível: o ruído

Teletransportação 1
© Metamorworks – Shutterstock

Em cabos de telecomunicações, o maior problema para a informação quântica é o chamado ruído Raman. Ele surge quando sinais clássicos interagem com o material da fibra, espalhando energia em comprimentos de onda indesejados — justamente onde os fótons quânticos operam.

A solução do grupo foi elegante e estratégica. Os pesquisadores separaram claramente os “mundos” clássico e quântico dentro do mesmo cabo.

  • Os fótons quânticos foram transmitidos na banda O, em torno de 1290 a 1310 nanômetros.

  • O tráfego de dados convencional permaneceu na banda C, perto de 1547 nanômetros.

Além disso, filtros espectrais e temporais refinados garantiram que apenas os sinais quânticos corretos fossem detectados, preservando a fidelidade do teletransporte mesmo com tráfego intenso de dados.

Por que isso muda o jogo das redes quânticas

O maior impacto do experimento não está apenas no “como”, mas no onde. Até agora, redes quânticas dependiam de fibras dedicadas, caras e difíceis de instalar. Isso limitava drasticamente sua expansão.

Ao mostrar que a infraestrutura atual da internet pode ser reutilizada, o estudo derruba uma das maiores barreiras práticas do setor. Em vez de redes paralelas e exclusivas, torna-se possível imaginar uma internet híbrida, onde comunicações clássicas e quânticas coexistem.

Isso abre caminho para:

  • Interligar computadores quânticos em diferentes cidades, criando computação distribuída.

  • Novos esquemas de comunicação ultrassegura, complementando a criptografia quântica.

  • Sensoriamento e sincronização de altíssima precisão, usando correlações quânticas entre pontos distantes.

O que ainda falta para o “internet quântica”

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© Manuel – Unsplash

Apesar do avanço, os próprios pesquisadores são cautelosos. O próximo passo é ampliar as distâncias, testar topologias mais complexas — como troca de entrelaçamento entre múltiplos nós — e levar o sistema para condições ainda mais realistas.

Isso inclui cabos enterrados, variações térmicas, vibrações e interferências típicas do mundo fora do laboratório. Cada um desses fatores representa um desafio adicional para sinais quânticos delicados.

Um marco silencioso, mas histórico

O estudo, publicado na revista Optica, marca um ponto de virada. Ele mostra que a internet quântica não precisa nascer separada da internet atual — ela pode evoluir dentro dela.

Sem anúncios grandiosos ou promessas futuristas exageradas, a ciência deu um passo concreto: a teletransportação quântica deixou de ser um experimento isolado e passou a funcionar onde a internet realmente vive — nos mesmos cabos que conectam o mundo hoje.

 

[ Fonte: Econoticias ]

 

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