Em 1971, a nave espacial Mariner 9 da NASA chegou a Marte e encontrou a superfície do planeta coberta por uma camada de poeira provocada por uma enorme tempestade. Essas tempestades frequentemente envolvem o planeta, levantando partículas minúsculas que se deslocam a alta velocidade pela superfície.
Essas tempestades de outro mundo apresentam riscos significativos para missões em Marte, já que a poeira adere às superfícies dos exploradores robóticos, podendo causar danos graves e, em alguns casos, torná-los inoperantes. Agora, uma equipe de cientistas planetários da Universidade do Colorado Boulder acredita ter identificado os fatores que desencadeiam essas gigantescas tempestades de poeira, que muitas vezes começam em dias aparentemente tranquilos e ensolarados. Eles apresentaram suas descobertas na terça-feira, durante a reunião da União Americana de Geofísica em Washington, revelando informações importantes que podem influenciar futuras missões humanas ao planeta vermelho.
Os dados sobre as perigosas tempestades
Utilizando observações do Orbitador de Reconhecimento de Marte da NASA, os cientistas conseguiram identificar padrões climáticos relacionados a dois terços das maiores tempestades de poeira do planeta. Eles descobriram que o clima quente e ensolarado pode contribuir para o desencadeamento dessas tempestades.
O instrumento Climate Sounder, presente no Orbitador de Reconhecimento, vem coletando dados sobre a atmosfera e a superfície marciana nos últimos 15 anos. O estudo analisou períodos de calor anormal, quando a luz solar atravessa a atmosfera rarefeita de Marte e aquece a superfície. Os cientistas constataram que cerca de 68% das grandes tempestades de poeira foram precedidas por picos de temperatura elevada na superfície.
Na Terra, também
Embora seja difícil comprovar uma correlação direta entre dias quentes e ensolarados e tempestades de poeira que surgem semanas depois, na Terra há eventos climáticos causados por condições semelhantes. “Quando você aquece a superfície, a atmosfera logo acima dela fica mais leve e pode subir, carregando poeira consigo”, explicou Heshani Pieris, estudante do Laboratório de Física Atmosférica e Espacial da Universidade do Colorado Boulder e principal autora do estudo. “É como se Marte precisasse esperar até que o ar ficasse suficientemente claro para formar uma grande tempestade de poeira.”
Essas tempestades são tão intensas em Marte que, às vezes, podem ser observadas da Terra com telescópios. Grandes tempestades ocorrem anualmente em Marte e podem durar semanas, cobrindo extensas áreas do planeta. Além disso, a cada três anos marcianos (equivalentes a 5,5 anos terrestres), ocorre uma tempestade que cobre todo o planeta, segundo a NASA.
O impacto para as missões futuras
Essas tempestades globais são as mais preocupantes. Em junho de 2018, uma intensa tempestade de poeira cobriu os painéis solares do explorador Opportunity, levando a NASA a encerrar sua missão marciana. Com a NASA planejando enviar astronautas a Marte na década de 2030, essas tempestades representam um risco significativo para missões humanas. Por isso, os cientistas estão se dedicando a compreender suas causas, com o objetivo de aprimorar as previsões sobre quando essas tempestades devastadoras podem ocorrer.