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Ciência

Algumas pessoas dormem quatro horas e acordam naturalmente descansadas — cientistas encontraram pistas no DNA

Enquanto a maioria dos adultos precisa de várias horas de descanso, um pequeno grupo parece seguir regras diferentes. Mutações raras estão ajudando cientistas a entender esse fenômeno.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Dormir quatro ou cinco horas por noite costuma cobrar seu preço: cansaço, dificuldade de concentração e, quando o padrão se prolonga, possíveis consequências para a saúde. Mas existe uma pequena parcela da população que desafia essa lógica. Essas pessoas acordam espontaneamente depois de poucas horas e afirmam estar completamente recuperadas. Não é treinamento nem força de vontade. Estudos com famílias sugerem que parte da explicação pode estar escrita em seus genes.

Elas não dormem pouco porque precisam acordar cedo

Essas pessoas são conhecidas como dormidores curtos naturais.

A diferença é fundamental. Não se trata de alguém que dorme cinco horas porque trabalha até tarde, passa a madrugada no celular ou precisa acordar cedo.

Dormidores curtos naturais costumam descansar entre quatro e seis horas por noite e não apresentam sinais evidentes de privação de sono. O padrão permanece inclusive durante fins de semana, férias ou períodos sem compromissos.

Muitas vezes, eles simplesmente despertam sem alarme e se sentem bem ao longo do dia.

A neurologista Ying-Hui Fu, da Universidade da Califórnia em São Francisco, estuda há anos famílias nas quais essa característica aparece em vários integrantes.

Esse padrão familiar levou pesquisadores a investigar uma possível origem genética.

Ao longo dos estudos, variantes raras foram identificadas em genes como DEC2, ADRB1, NPSR1, GRM1 e SIK3, envolvidos de diferentes maneiras na regulação do sono e da vigília.

Isso não significa que exista simplesmente um “gene de quem precisa dormir pouco”. O fenômeno parece envolver mecanismos biológicos bem mais complexos.

Uma nova mutação ofereceu outra pista sobre o que acontece no cérebro

Um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences identificou uma variante chamada SIK3-N783Y em uma pessoa com sono curto natural.

Os pesquisadores reproduziram uma mutação equivalente em camundongos.

O resultado chamou atenção: os animais modificados dormiram menos do que os animais do grupo de controle.

Também foram detectadas alterações em proteínas relacionadas às sinapses, as estruturas utilizadas pelos neurônios para se comunicar.

Isso reforça a ideia de que a quantidade de sono necessária pode ser parcialmente influenciada por mecanismos genéticos.

A grande pergunta, porém, continua aberta: como alguém consegue dormir tão pouco sem aparentemente acumular os efeitos normalmente associados à falta de descanso?

Uma das hipóteses é que determinados cérebros consigam realizar alguns processos restauradores de maneira mais eficiente.

Pesquisas anteriores observaram que alguns dormidores curtos naturais preservam proporções normais de sono profundo de ondas lentas, fase relacionada à recuperação física, memória e manutenção das funções cerebrais.

Talvez eles não precisem simplesmente “descansar menos”, mas consigam cumprir determinadas funções do sono em menos tempo.

Por enquanto, isso continua sendo uma hipótese.

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© Magnific

Dormir cinco horas por hábito não transforma ninguém em um desses casos

Essa distinção é especialmente importante.

O cérebro regula o sono por diferentes mecanismos. Entre os principais estão o ritmo circadiano, que influencia os horários em que sentimos sono e despertamos, e a pressão homeostática do sono, que aumenta conforme permanecemos acordados.

É possível acostumar-se subjetivamente a dormir pouco e ainda assim não estar completamente recuperado.

Portanto, conseguir trabalhar depois de cinco horas de sono não demonstra que alguém seja um dormidor curto natural.

Para a maioria dos adultos, recomendações gerais continuam apontando para aproximadamente sete a nove horas de sono por noite, embora necessidades individuais possam variar.

O mais interessante talvez não seja descobrir como dormir menos

Estudar essas famílias pode ajudar os cientistas a compreender algo muito maior: por que precisamos dormir durante tantas horas e quais mecanismos determinam essa necessidade.

Pesquisas em animais também relacionaram algumas mutações associadas ao sono curto natural a alterações em processos envolvendo proteínas amiloides e tau, conhecidas por seu papel em doenças neurodegenerativas.

Isso não significa que dormir quatro horas proteja contra Alzheimer. Essas observações vêm principalmente de modelos animais e os mecanismos ainda precisam ser esclarecidos.

Existem pessoas que parecem funcionar naturalmente com apenas quatro a seis horas de sono, e variantes genéticas raras podem ajudar a explicar essa capacidade. Mas elas são uma exceção, não uma prova de que todos podem treinar o organismo para dormir menos.

Para a maioria das pessoas, quatro horas continuam sendo apenas quatro horas.

O que esses casos extraordinários revelam é outra coisa: talvez a quantidade de sono de que cada cérebro precisa seja mais individual — e mais genética — do que imaginávamos.

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