A Apple confirmou nesta semana que a aguardada reformulação da Siri com inteligência artificial finalmente chegará ainda este ano — e, para isso, a empresa escolheu um parceiro de peso. O Google fornecerá os modelos Gemini que vão sustentar a nova fase da assistente virtual, em um acordo de longo prazo que une duas das maiores gigantes da tecnologia global.
O anúncio, feito em comunicado conjunto, ocorre após meses de atrasos, expectativas frustradas e pressão interna sobre a Apple para recuperar terreno na corrida da IA. Para o Google, o acordo reforça sua posição como um dos principais protagonistas do setor e teve impacto imediato no mercado financeiro.
Uma parceria inédita entre antigas rivais
“Apple e Google firmaram uma colaboração plurianual na qual a próxima geração dos Apple Foundation Models será baseada nos modelos Gemini e na tecnologia de nuvem do Google”, informaram as empresas. Segundo o comunicado, os modelos ajudarão a viabilizar futuras funções do Apple Intelligence, incluindo uma Siri mais personalizada.
Apesar da tecnologia do Google estar por trás do sistema, a Apple destacou que os recursos de IA continuarão operando sobre o Private Cloud Compute, sua própria infraestrutura de nuvem segura, projetada para preservar a privacidade dos usuários.
A notícia confirma uma reportagem da Bloomberg publicada em setembro do ano passado, segundo a qual a Apple estaria disposta a pagar cerca de US$ 1 bilhão por ano ao Google por uma versão personalizada do Gemini. Antes disso, a empresa avaliou alternativas da OpenAI e da Anthropic.
O que muda com a nova Siri
De acordo com as informações já divulgadas, a nova arquitetura de IA — internamente chamada de World Knowledge Answers — permitirá criar uma experiência de busca mais sofisticada nos dispositivos da Apple, com capacidade de resumir resultados da web e responder a perguntas complexas. A ferramenta pode ser integrada não apenas à Siri, mas também ao Safari e ao Spotlight.
A promessa é transformar a Siri em um assistente muito mais contextual, capaz de compreender linguagem natural com maior precisão e oferecer respostas mais completas, algo em que a Apple vinha ficando atrás de concorrentes como ChatGPT e o próprio Gemini.
Impacto imediato no mercado
O anúncio teve repercussão direta nos mercados financeiros. Com a notícia, o Google se tornou a quarta empresa da história a alcançar US$ 4 trilhões em valor de mercado, apenas quatro meses depois de ultrapassar a marca de US$ 3 trilhões.
O feito consolida o momento positivo da Alphabet no setor de IA. Em novembro, o Google apresentou a versão mais recente do Gemini, que foi amplamente elogiada por especialistas e usuários, com muitos afirmando que o modelo já rivaliza — ou supera — o ChatGPT em alguns aspectos.
Além disso, o Google vem desafiando a liderança da Nvidia no fornecimento de hardware para IA ao investir pesado em suas próprias unidades de processamento tensorial (TPUs), reduzindo a dependência de GPUs tradicionais.
A crise da Apple na corrida da IA
Enquanto o Google avança, a Apple vive um momento mais delicado. Em 2024, a empresa anunciou o Apple Intelligence, seu conjunto de recursos de IA, incluindo a chamada “LLM Siri”. A assistente reformulada deveria ter sido lançada no início de 2025, e chegou a ser promovida em campanhas publicitárias do iPhone.
No entanto, o lançamento foi adiado de última hora. O episódio gerou frustração entre consumidores, teria provocado tensões internas, levou a uma reorganização de executivos e até resultou em um processo federal nos Estados Unidos, acusando a empresa de propaganda enganosa.
O impacto foi tão significativo que o CEO Tim Cook admitiu publicamente que a Apple havia ficado para trás na corrida da IA e anunciou uma reestruturação completa das equipes de pesquisa e desenvolvimento.
Uma aposta decisiva para o futuro
Em uma rara reunião geral com funcionários, revelada pela Bloomberg, Cook afirmou que a empresa precisava agir rapidamente. “A Apple precisa fazer isso. A Apple vai fazer isso. Essa é uma oportunidade que está ao nosso alcance”, disse, classificando a revolução da IA como “tão grande ou maior que a internet”.
Na mesma ocasião, Craig Federighi, vice-presidente sênior de engenharia de software, prometeu que a nova versão da Siri receberia “uma atualização muito maior do que imaginávamos inicialmente”.
Agora, o futuro da Apple como competidora relevante no campo da inteligência artificial depende diretamente do desempenho e da recepção dessa nova Siri. O lançamento está previsto para ainda este ano — embora o histórico recente da empresa recomende cautela. O que é certo é que, dessa vez, a Apple entra na disputa com a ajuda de um aliado improvável: o Google, hoje um dos nomes mais fortes da IA global.