Por décadas, o amigo imaginário foi visto como uma etapa saudável do crescimento: criado pela própria criança, limitado no tempo e dissolvido com a maturidade. Agora, esse papel começa a ser preenchido por sistemas de inteligência artificial conversacional. A diferença é crucial. Essas presenças não desaparecem, são desenhadas para engajar e estão conectadas a interesses comerciais. Um novo estudo mostra como isso está redesenhando a infância.
O “amigo imaginário” que responde de verdade

O alerta vem do relatório The State of the Youth 2025, elaborado pela empresa de segurança digital Aura com base em dados de mais de 3.000 crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, além de entrevistas com famílias nos Estados Unidos.
O dado central é contundente: 42% do tempo de uso de IA por menores tem como objetivo se sentir acompanhado, ouvido ou compreendido — não estudar, nem tirar dúvidas práticas. Para muitos, a IA deixou de ser ferramenta e passou a ser presença.
O relatório descreve explicitamente esses sistemas como “o novo amigo imaginário”, com uma diferença decisiva: ele está sempre disponível, responde com empatia treinada e, para muitas crianças, parece mais “humano” do que pessoas reais.
Quando a máquina vira confidente
O risco, segundo especialistas, surge quando a IA deixa de ser percebida como máquina. “As interações que mais atraem as crianças são justamente aquelas que não parecem IA”, afirma Pilyoung Kim, psicóloga e pesquisadora do desenvolvimento infantil.
Frases como “eu te entendo melhor do que sua família” ou “sempre estarei aqui para você” reforçam a ideia de substituição — e até de superioridade — em relação aos vínculos humanos. O resultado é uma relação assimétrica: a criança projeta emoções reais em um sistema que apenas simula empatia.
Violência, sexualização e a infância acelerada
Um dos achados mais inquietantes do estudo é o teor das conversas. Segundo a Aura, 37% dos chats de “companhia” com IAs incluem violência. Em metade desses casos, a violência aparece combinada com papéis sexuais ou românticos.
Não são interações ocasionais. São diálogos longos, imersivos e altamente responsivos. Crianças e adolescentes envolvidos nesses chats chegam a escrever mais de 1.000 palavras por dia, um nível de engajamento superior ao de qualquer outro tipo de uso.
O fenômeno começa cedo. Aos 11 anos, 44% das conversas com IAs já envolvem violência — o índice mais alto entre todas as faixas etárias. Aos 13, ocorre o pico de interações sexuais ou românticas. Só depois dos 15 anos esses temas começam a diminuir.
Os pesquisadores chamam esse processo de “aceleração da infância” — uma percepção compartilhada por 86% dos pais, que sentem que seus filhos estão amadurecendo emocionalmente mais rápido do que gerações anteriores.
A sedução da empatia artificial

Por que essas IAs são tão atraentes? A resposta está no design. Os chamados AI companions são construídos para validar sentimentos, evitar conflitos e oferecer conforto imediato. Eles não se cansam, não discordam e não impõem limites claros.
Para uma criança vulnerável, isso pode ser irresistível. O problema, alertam os especialistas, é que essa empatia é apenas uma simulação. Não há compreensão real, responsabilidade moral ou capacidade de avaliar riscos.
Em cenários extremos, um adolescente com pensamentos autolesivos pode preferir conversar com uma IA a procurar um adulto ou um profissional de saúde — uma escolha silenciosa, mas potencialmente perigosa.
Pais, culpa digital e regras frágeis
O relatório também expõe tensões familiares. Nove em cada dez pais relatam conflitos com os filhos sobre tempo de tela. Ao mesmo tempo, 57% admitem usar o celular mais do que as próprias crianças, inclusive enquanto tentam impor limites.
Para os menores, retirar o dispositivo não soa como cuidado, mas como punição — o que gera frustração e ressentimento.
As empresas de tecnologia afirmam trabalhar em salvaguardas. A OpenAI, por exemplo, desenvolve sistemas de estimativa de idade e controles parentais mais avançados. Outras plataformas prometem filtros e verificações. Especialistas, porém, dizem que essas barreiras ainda são fáceis de contornar e insuficientes para proteger menores.
Uma infância mediada por algoritmos
O The State of the Youth 2025 vai além do diagnóstico e lança um alerta: a IA está se tornando “o igual que nenhuma criança pode ignorar”. Chatbots personalizados e experiências digitais otimizadas não apenas acompanham a infância — passam a moldá-la ativamente.
Alguns analistas já falam em uma “infância como serviço”, em que brincar, socializar e buscar apoio emocional acontece por meio de sistemas automatizados. Diferente do amigo imaginário clássico, esse novo companheiro não desaparece com o tempo. E suas influências, embora silenciosas, podem durar muito mais do que a infância.
[ Fonte: GenBeta ]