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Ciência

Astrônomos descobrem planeta errante que cresce a ritmo recorde de 6,6 bilhões de toneladas por segundo

O objeto, batizado de Cha 1107-7626, não orbita nenhuma estrela e está devorando gás e poeira em uma taxa jamais registrada. A descoberta pode mudar o que sabemos sobre a infância de planetas e sua semelhança com estrelas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um planeta jovem e solitário, a 620 anos-luz da Terra, está surpreendendo a comunidade científica ao apresentar um comportamento mais parecido com o de uma estrela em formação do que com o de um planeta. O Cha 1107-7626, localizado na constelação de Camaleão, cresce a uma taxa furiosa de bilhões de toneladas por segundo, em um dos fenômenos mais extraordinários já observados em mundos errantes.

O planeta que age como estrela

Cha 1107-7626 foi descoberto em 2008, mas apenas agora revelou toda a sua intensidade. O planeta, com massa entre cinco e dez vezes a de Júpiter, ainda está em fase de formação, com apenas 1 a 2 milhões de anos de idade. Em termos astronômicos, é praticamente um bebê — especialmente quando comparado aos 4,5 bilhões de anos dos planetas do nosso Sistema Solar.

O que chama atenção é que ele está cercado por um disco de gás e poeira, típico de estrelas jovens, que alimenta seu crescimento por um processo chamado acréscimo. Mas, nos últimos meses, sua taxa de crescimento disparou: o planeta passou a devorar 6,6 bilhões de toneladas de material por segundo, segundo estudo publicado no The Astrophysical Journal Letters.

O “estouro de crescimento” observado

A equipe internacional de astrônomos utilizou o Very Large Telescope (VLT), no deserto do Atacama (Chile), e o Telescópio Espacial James Webb para monitorar o planeta. Entre abril e maio de 2024, ele mantinha um ritmo de crescimento estável. Mas, entre junho e agosto, entrou em um estouro de acreção sem precedentes, aumentando oito vezes sua taxa de absorção de matéria.

“Captamos esse planeta errante no ato de devorar material a um ritmo furioso”, disse Ray Jayawardhana, coautor do estudo e professor da Universidade Johns Hopkins. “Sua infância parece muito mais turbulenta do que imaginávamos.”

Os dados também mostraram uma mudança química no disco: durante o crescimento acelerado, vapor d’água surgiu em grande quantidade, algo nunca visto em torno de planetas — apenas em discos de estrelas jovens.

Por que isso importa

Normalmente, explosões de crescimento são associadas a estrelas recém-nascidas. O fato de um planeta apresentar esse comportamento sugere que campos magnéticos intensos — antes atribuídos apenas a estrelas — também podem desempenhar papel em objetos muito menores.

Segundo o astrônomo Aleks Scholz, da Universidade de St. Andrews, Cha 1107-7626 provavelmente se formou da mesma forma que estrelas: pelo colapso de uma nuvem molecular de gás e poeira, em vez de nascer como um planeta tradicional em órbita de uma estrela.

Isso abre espaço para novas teorias sobre a origem dos chamados planetas errantes, que não orbitam nenhuma estrela e vagam pelo espaço de forma isolada.

Episódios recorrentes de crescimento

Comparando dados recentes com registros anteriores, os pesquisadores descobriram que o planeta já havia passado por um evento semelhante em 2016. Isso levanta a hipótese de que Cha 1107-7626 possa ter múltiplos surtos de crescimento ao longo de sua infância, algo que ainda não foi totalmente explicado.

Agora, os cientistas querem entender quanto esses episódios contribuem para o crescimento total do planeta e quais mecanismos os disparam.

O futuro das observações

O estudo marca um avanço na compreensão de mundos errantes, objetos extremamente tênues e difíceis de detectar. Mas o cenário deve mudar com a próxima geração de telescópios, como o Observatório Vera C. Rubin, o Telescópio Extremamente Grande (ELT) no Chile e o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, com lançamento previsto para 2027.

Esses instrumentos poderão analisar em detalhes não só a composição de discos planetários, mas também possíveis luas que possam se formar em torno de gigantes como Cha 1107-7626. Para astrônomos, imaginar luas semelhantes a Titã — com atmosfera e clima — abre possibilidades até de ambientes habitáveis em sistemas tão inusitados.

Um planeta, muitas perguntas

A descoberta de um planeta que engorda como uma estrela lança novas luzes sobre a diversidade dos mundos que existem no cosmos. Cha 1107-7626 ainda é jovem, imprevisível e difícil de decifrar. Mas cada nova observação revela que a linha entre planetas e estrelas pode ser muito mais tênue do que acreditávamos.

 

[ Fonte: CNN emEspanhol ]

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