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Tecnologia

Centros de dados sob escrutínio: o que é mito e o que é realidade sobre consumo de água, energia e impacto ambiental

Bilhões de euros em investimentos colocaram Aragão no mapa europeu dos data centers. Mas junto com os anúncios vieram dúvidas: consomem água demais? Vão encarecer a conta de luz? São realmente sustentáveis? Especialistas afirmam que parte da controvérsia ignora ganhos expressivos de eficiência energética e hídrica.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A onda de projetos anunciados por empresas como Amazon Web Services, Microsoft, Blackstone e Schneider Electric transformou regiões como Zaragoza e Huesca em polos estratégicos de infraestrutura digital.

Com investimentos que superam 60 bilhões de euros no setor tecnológico, os centros de dados passaram a ser alvo de questionamentos ambientais — especialmente sobre consumo de energia e água.

Mas o que dizem os números?

São vilões energéticos?

Ambiente Datacenter
© Jason marz via Getty Images

Data centers são, sim, eletrointensivos. Isso significa que consomem grandes volumes de energia.

No entanto, segundo dados do setor, o consumo na Espanha ainda representa menos de 1% do total nacional. Na média europeia, esse percentual gira em torno de 3%.

Ou seja, estão longe de dominar a matriz elétrica.

Além disso, a Espanha é uma das líderes europeias em geração renovável, com forte presença de energia eólica e solar. O debate atual envolve mais a capacidade de distribuição — especialmente em nós de conexão saturados — do que a geração em si.

O que é PUE — e por que ele importa?

A eficiência energética de um centro de dados é medida pelo PUE (Power Usage Effectiveness).

Um PUE de 1,0 seria perfeito: toda a energia consumida seria usada exclusivamente para processamento.

Centros hiperescalares — como os projetados em Aragão — operam com PUE abaixo de 1,2. Em alguns casos, chegam a 1,1.

Já data centers tradicionais e distribuídos costumam operar acima de 1,5, podendo alcançar 1,8 ou até 2,0.

A diferença é significativa.

Infraestruturas maiores seguem padrões construtivos mais rigorosos e metas de eficiência que dificilmente são replicadas em estruturas menores e fragmentadas.

A conta de luz vai subir?

Um dos temores recorrentes é o impacto na tarifa elétrica residencial.

Especialistas afirmam que, no modelo espanhol de mercado energético, isso não é provável. As tarifas são nacionais e não variam localmente conforme congestionamentos regionais.

Mesmo que determinada área esteja sob maior demanda, o sistema regulatório atual não permite que isso se traduza automaticamente em aumento na conta de luz dos consumidores daquela região.

E a água?

Megaprojeto No Ceará1
© Secretaria de Recursos Hídricos (SRH)

O consumo hídrico é outro ponto sensível.

Tradicionalmente, muitos centros de dados utilizavam sistemas de refrigeração a ar. Hoje, a tendência dominante é a refrigeração líquida em circuito fechado.

Nesse modelo, o fluido refrigerante circula internamente e não é descartado.

O consumo de água torna-se praticamente nulo no processo de resfriamento — conhecido como “zero water” — restando basicamente o uso sanitário.

Além disso, novas GPUs, como as da NVIDIA, já permitem resfriamento com líquidos a temperaturas de até 45 °C. Isso viabiliza o chamado “free cooling”: em muitas regiões, o ambiente externo já é suficiente para manter o sistema estável sem necessidade de resfriamento adicional intensivo.

Inteligência artificial para economizar energia

Curiosamente, a própria inteligência artificial está sendo usada para tornar os centros de dados mais eficientes.

Sistemas de gestão digital e controle inteligente podem reduzir o consumo energético em até 25%, segundo estimativas do setor.

Processadores também evoluíram. Há poucos anos, a eficiência das CPUs girava em torno de 92%. Hoje, está entre 98% e 99%.

Pequenos ganhos percentuais, quando multiplicados por milhares de servidores, geram impacto significativo.

Microrredes e geração própria

Outra tendência é a hibridização energética.

Centros de dados começam a incorporar geração própria — solar, eólica ou combinada — além de sistemas de armazenamento.

Embora seja economicamente complexo operar totalmente desconectado da rede, a combinação entre geração local, baterias e rede pública permite que essas infraestruturas atuem como estabilizadores do sistema elétrico.

Em vez de apenas consumidores, podem se tornar agentes de flexibilidade.

Construção modular: eficiência desde o projeto

O modelo construtivo também mudou.

Centros modulares permitem expansão por fases — fase 1, fase 2, fase 3 — evitando sobredimensionamento inicial.

Esse conceito pode gerar ganhos de eficiência entre 15% e 20% na etapa de design e operação.

Padronização reduz desperdícios e melhora desempenho energético desde a base.

Meio para a digitalização — não um fim em si

Parte da controvérsia, segundo especialistas, decorre da percepção de que centros de dados seriam um fim.

Na prática, são a infraestrutura que viabiliza digitalização, teletrabalho, reuniões virtuais e automação industrial — processos que também reduzem emissões indiretas.

O debate ambiental é legítimo.

Mas os dados indicam que a tendência atual do setor não é de expansão descontrolada, e sim de busca contínua por eficiência.

Em um mundo cada vez mais digital, a pergunta talvez não seja se precisamos de centros de dados.

Mas como torná-los cada vez mais sustentáveis.

 

[ Fonte: El Economista ]

 

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