A onda de projetos anunciados por empresas como Amazon Web Services, Microsoft, Blackstone e Schneider Electric transformou regiões como Zaragoza e Huesca em polos estratégicos de infraestrutura digital.
Com investimentos que superam 60 bilhões de euros no setor tecnológico, os centros de dados passaram a ser alvo de questionamentos ambientais — especialmente sobre consumo de energia e água.
Mas o que dizem os números?
São vilões energéticos?

Data centers são, sim, eletrointensivos. Isso significa que consomem grandes volumes de energia.
No entanto, segundo dados do setor, o consumo na Espanha ainda representa menos de 1% do total nacional. Na média europeia, esse percentual gira em torno de 3%.
Ou seja, estão longe de dominar a matriz elétrica.
Além disso, a Espanha é uma das líderes europeias em geração renovável, com forte presença de energia eólica e solar. O debate atual envolve mais a capacidade de distribuição — especialmente em nós de conexão saturados — do que a geração em si.
O que é PUE — e por que ele importa?
A eficiência energética de um centro de dados é medida pelo PUE (Power Usage Effectiveness).
Um PUE de 1,0 seria perfeito: toda a energia consumida seria usada exclusivamente para processamento.
Centros hiperescalares — como os projetados em Aragão — operam com PUE abaixo de 1,2. Em alguns casos, chegam a 1,1.
Já data centers tradicionais e distribuídos costumam operar acima de 1,5, podendo alcançar 1,8 ou até 2,0.
A diferença é significativa.
Infraestruturas maiores seguem padrões construtivos mais rigorosos e metas de eficiência que dificilmente são replicadas em estruturas menores e fragmentadas.
A conta de luz vai subir?
Um dos temores recorrentes é o impacto na tarifa elétrica residencial.
Especialistas afirmam que, no modelo espanhol de mercado energético, isso não é provável. As tarifas são nacionais e não variam localmente conforme congestionamentos regionais.
Mesmo que determinada área esteja sob maior demanda, o sistema regulatório atual não permite que isso se traduza automaticamente em aumento na conta de luz dos consumidores daquela região.
E a água?

O consumo hídrico é outro ponto sensível.
Tradicionalmente, muitos centros de dados utilizavam sistemas de refrigeração a ar. Hoje, a tendência dominante é a refrigeração líquida em circuito fechado.
Nesse modelo, o fluido refrigerante circula internamente e não é descartado.
O consumo de água torna-se praticamente nulo no processo de resfriamento — conhecido como “zero water” — restando basicamente o uso sanitário.
Além disso, novas GPUs, como as da NVIDIA, já permitem resfriamento com líquidos a temperaturas de até 45 °C. Isso viabiliza o chamado “free cooling”: em muitas regiões, o ambiente externo já é suficiente para manter o sistema estável sem necessidade de resfriamento adicional intensivo.
Inteligência artificial para economizar energia
Curiosamente, a própria inteligência artificial está sendo usada para tornar os centros de dados mais eficientes.
Sistemas de gestão digital e controle inteligente podem reduzir o consumo energético em até 25%, segundo estimativas do setor.
Processadores também evoluíram. Há poucos anos, a eficiência das CPUs girava em torno de 92%. Hoje, está entre 98% e 99%.
Pequenos ganhos percentuais, quando multiplicados por milhares de servidores, geram impacto significativo.
Microrredes e geração própria
Outra tendência é a hibridização energética.
Centros de dados começam a incorporar geração própria — solar, eólica ou combinada — além de sistemas de armazenamento.
Embora seja economicamente complexo operar totalmente desconectado da rede, a combinação entre geração local, baterias e rede pública permite que essas infraestruturas atuem como estabilizadores do sistema elétrico.
Em vez de apenas consumidores, podem se tornar agentes de flexibilidade.
Construção modular: eficiência desde o projeto
O modelo construtivo também mudou.
Centros modulares permitem expansão por fases — fase 1, fase 2, fase 3 — evitando sobredimensionamento inicial.
Esse conceito pode gerar ganhos de eficiência entre 15% e 20% na etapa de design e operação.
Padronização reduz desperdícios e melhora desempenho energético desde a base.
Meio para a digitalização — não um fim em si
Parte da controvérsia, segundo especialistas, decorre da percepção de que centros de dados seriam um fim.
Na prática, são a infraestrutura que viabiliza digitalização, teletrabalho, reuniões virtuais e automação industrial — processos que também reduzem emissões indiretas.
O debate ambiental é legítimo.
Mas os dados indicam que a tendência atual do setor não é de expansão descontrolada, e sim de busca contínua por eficiência.
Em um mundo cada vez mais digital, a pergunta talvez não seja se precisamos de centros de dados.
Mas como torná-los cada vez mais sustentáveis.
[ Fonte: El Economista ]