Estudos recentes indicam que muitos adultos saudáveis funcionam melhor, física e mentalmente, com cerca de sete horas de sono. Dormir menos ou mais do que isso, segundo os dados, pode até aumentar riscos à saúde.
Por que o corpo não segue um número fixo

Para o psicólogo clínico Tony Cunningham, diretor do Centro de Sono e Cognição em Boston e professor da Harvard Medical School, o erro está em tratar o sono como uma conta matemática.
“Muita gente se preocupa apenas com quantas horas dorme e esquece da qualidade do sono, que pode ser ainda mais importante”, explicou em entrevista à CNN. Segundo ele, o sono é regulado por dois mecanismos principais.
O primeiro é a chamada pressão do sono, que aumenta quanto mais tempo ficamos acordados. O segundo é o ritmo circadiano, nosso relógio biológico interno, responsável por organizar o ciclo de vigília e descanso ao longo do dia.
Cunningham compara o processo à fome: quanto mais tempo você passa sem comer, maior ela fica. Com o sono, a lógica é parecida. Ir para a cama quando a pressão do sono está alta costuma resultar em um descanso mais profundo e eficiente.
A regra das 8 horas é mesmo “natural”?
O biólogo evolucionista Daniel E. Lieberman, também de Harvard, é ainda mais direto. Para ele, a ideia das oito horas é um “nonsense da Era Industrial”. Segundo Lieberman, populações que vivem sem eletricidade e sem rotinas modernas costumam dormir entre seis e sete horas por noite — e sem cochilos durante o dia.
Em seu livro Exercised: The Science of Physical Activity, Rest and Health, o pesquisador cita estudos que mostram uma curva em formato de U quando se analisa sono e mortalidade. Dormir menos de sete horas aumenta riscos, mas dormir demais também. O ponto mais seguro, estatisticamente, fica em torno de sete horas diárias.
O que dizem as instituições de saúde hoje
As descobertas não contradizem totalmente as recomendações oficiais, mas ajudam a ajustá-las. A American Academy of Sleep Medicine indica “sete horas ou mais” para adultos — não exatamente oito. A Mayo Clinic segue a mesma linha e reforça que a necessidade de sono varia conforme idade, nível de estresse, gravidez e qualidade do descanso.
A especialista em sono Rebecca Robbins lembra que mais de um terço dos adultos dorme menos do que o recomendado. Para ela, o foco deveria estar menos em bater metas rígidas e mais em manter regularidade, rotina noturna e bons hábitos antes de dormir.
Dormir bem importa mais do que dormir “certo”
No fim das contas, a ciência deixa um recado claro: não existe um número mágico de horas de sono que funcione para todo mundo. Entender seu próprio ritmo, priorizar a qualidade do descanso e manter uma rotina consistente pode ser muito mais importante do que perseguir as famosas oito horas. Talvez o verdadeiro erro não seja dormir menos — e sim dormir mal.
[Fonte: Diário do Comércio]