Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas descobrem como mosquitos detectam repelentes naturais — e isso pode levar a uma nova geração de produtos contra picadas

Pesquisadores identificaram o mecanismo sensorial que permite a certos mosquitos reconhecer compostos vegetais que funcionam como repelentes. A descoberta revela um receptor olfativo específico que reage a substâncias naturais e pode ajudar no desenvolvimento de repelentes mais eficazes contra doenças transmitidas por mosquitos.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Óleos essenciais extraídos de plantas são usados há muito tempo como repelentes naturais contra mosquitos. No entanto, até recentemente os cientistas não compreendiam exatamente como esses compostos influenciavam o comportamento dos insetos. Um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications trouxe respostas importantes ao identificar o mecanismo biológico que permite aos mosquitos detectar e evitar certas substâncias vegetais, abrindo novas possibilidades para o controle de doenças transmitidas por esses insetos.

Um sensor especializado no olfato dos mosquitos

Mosquitos Por Drones No Havaí
© Prashant bamnawat – Unsplash

A pesquisa revelou que algumas espécies de mosquitos possuem um receptor olfativo específico capaz de detectar o borneol, um composto presente em diversas plantas.

Esse receptor, chamado OR49, está localizado em uma neurona sensorial presente no palpo maxilar — um pequeno apêndice próximo à boca do mosquito responsável por detectar odores.

Quando o borneol é percebido, o receptor envia um sinal ao cérebro do inseto, desencadeando uma resposta de rejeição.

Esse mecanismo faz com que o mosquito se afaste da substância, reduzindo a probabilidade de picar seres humanos próximos.

Espécies que transmitem doenças usam esse mecanismo

O estudo mostrou que o receptor OR49 está presente em espécies de grande importância para a saúde pública.

Entre elas estão Aedes aegypti e Aedes albopictus, responsáveis pela transmissão de doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

As fêmeas dessas espécies — que são as responsáveis pelas picadas — utilizam esse sistema sensorial para detectar o borneol e evitar ambientes onde ele está presente.

Curiosamente, esse canal sensorial funciona de forma independente dos mecanismos usados pelos mosquitos para localizar seres humanos.

Isso significa que o sistema que detecta repelentes é diferente daquele que identifica odores corporais ou dióxido de carbono emitido pelas pessoas.

Nem todos os mosquitos respondem da mesma forma

Os pesquisadores também descobriram que nem todas as espécies possuem esse mecanismo.

O mosquito Anopheles gambiae, principal transmissor da malária, não possui o gene responsável por produzir o receptor OR49.

Nesse caso, uma neurona equivalente utiliza outro receptor olfativo chamado OR28, que não responde ao borneol.

Essa diferença genética ajuda a explicar por que alguns repelentes naturais funcionam melhor contra certas espécies do que contra outras.

Experimentos confirmaram o papel do gene Or49

Para comprovar a importância do receptor OR49, os cientistas realizaram uma série de testes experimentais.

Primeiro, mediram a atividade elétrica dos órgãos sensoriais de diferentes espécies quando expostos ao borneol.

Em mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus foi observada uma resposta neural clara, enquanto em Anopheles gambiae não houve reação significativa.

Em seguida, os pesquisadores utilizaram técnicas de edição genética para criar mosquitos Aedes aegypti sem o gene Or49.

Esses insetos geneticamente modificados não reagiram ao borneol e demonstraram muito menos tendência a evitar a substância durante a busca por sangue humano.

Testes comportamentais com humanos

Mosquitos aparecem pela primeira vez na Islândia — e cientistas estão em alerta
© Pexels

Os pesquisadores também realizaram experimentos comportamentais para avaliar o efeito do borneol na prática.

Em testes realizados dentro de uma gaiola, mosquitos fêmeas tinham acesso a uma mão humana.

Quando a pele estava tratada com borneol, cerca de 54% dos mosquitos normais evitaram a área.

Já os mosquitos modificados, que não possuíam o receptor OR49, reduziram suas visitas em apenas 25%.

O estudo também observou que o efeito repelente foi mais intenso nos primeiros três minutos do experimento.

Novos caminhos para repelentes mais eficazes

A identificação desse mecanismo sensorial abre novas possibilidades para o desenvolvimento de repelentes mais eficientes.

Segundo os autores do estudo, compreender como compostos vegetais influenciam o comportamento dos mosquitos permite criar produtos direcionados especificamente aos receptores olfativos desses insetos.

Isso pode levar à descoberta de novas substâncias capazes de ativar o receptor OR49 e afastar mosquitos de forma mais eficaz.

Além disso, essas moléculas podem ser mais seguras, mais baratas de produzir e potencialmente mais agradáveis ao olfato humano do que alguns repelentes atuais.

Aplicações para saúde pública

Os pesquisadores também destacam que o borneol está presente em plantas usadas tradicionalmente em repelentes naturais, como o óleo da árvore de cânfora.

Entender o funcionamento desse sistema pode ajudar a melhorar a eficácia desses produtos.

Curiosamente, o borneol pode provocar efeitos diferentes dependendo do contexto.

Ele tende a repelir fêmeas em busca de sangue, mas pode atrair mosquitos quando procuram locais para depositar ovos.

Esse conhecimento pode ser usado para criar armadilhas específicas ou novas estratégias de controle populacional.

Um avanço no combate a doenças transmitidas por mosquitos

Mosquitos continuam sendo responsáveis pela transmissão de algumas das doenças mais perigosas do mundo.

Dengue, malária, zika e chikungunya afetam milhões de pessoas todos os anos.

Ao revelar um mecanismo biológico preciso que regula a resposta dos mosquitos a compostos naturais, o estudo oferece uma base científica sólida para desenvolver novas ferramentas de prevenção.

Combinando biologia molecular, genética e estudos comportamentais, os cientistas estão cada vez mais próximos de criar estratégias mais eficazes para reduzir o impacto global desses insetos.

 

[ Fonte: Infobae ]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados