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Ciência

Cientistas descobrem que espumas “aprendem”: o comportamento das bolhas segue princípios matemáticos semelhantes aos da inteligência artificial

Pesquisadores descobriram que as bolhas dentro das espumas não permanecem imóveis, como se acreditava. Em vez disso, elas se reorganizam continuamente seguindo princípios matemáticos semelhantes aos usados no treinamento de inteligência artificial. O achado pode mudar a forma como entendemos materiais complexos e até sistemas vivos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Espumas estão presentes em muitos elementos do cotidiano: no sabão, na espuma de barbear, no chantilly ou até em alimentos como a maionese. À primeira vista, parecem estruturas estáveis e quase sólidas. No entanto, novas pesquisas mostram que seu comportamento interno é muito mais dinâmico do que se imaginava. Um estudo recente revelou que as bolhas dentro das espumas estão em constante reorganização — e que esse processo segue princípios matemáticos surpreendentemente semelhantes aos usados no aprendizado da inteligência artificial.

O que realmente acontece dentro de uma espuma

Espuma Ii
© Cristian Palmer -Unsplash

Espumas são estruturas chamadas de bifásicas. Isso significa que são formadas por pequenas bolhas de gás ou gotas de líquido dispersas em outro meio líquido.

Durante décadas, cientistas acreditaram que essas bolhas ficavam presas em posições praticamente fixas, criando uma estrutura desordenada, mas relativamente estática. Esse comportamento parecia semelhante ao de materiais vítreos, como o vidro, nos quais as partículas permanecem “congeladas” em uma configuração desorganizada.

No entanto, um grupo de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia mostrou que essa interpretação estava incompleta.

Simulações revelam movimento constante

Utilizando simulações computacionais detalhadas, os cientistas acompanharam o movimento das bolhas dentro de uma espuma úmida.

Os resultados mostraram algo inesperado: mesmo mantendo sua forma geral externa, as bolhas estão continuamente mudando de posição e se reorganizando internamente.

Esse comportamento indica que a espuma não é um sistema estático, mas sim um sistema dinâmico em permanente transformação.

Segundo John C. Crocker, professor de engenharia química e biomolecular da Universidade da Pensilvânia, a descoberta foi surpreendente.

Ele explica que o sistema de bolhas parece obedecer a princípios matemáticos muito semelhantes aos que governam os sistemas modernos de inteligência artificial.

A conexão inesperada com o aprendizado de máquinas

Para entender esse comportamento, os pesquisadores recorreram a conceitos usados no treinamento de redes neurais.

Na inteligência artificial moderna, os sistemas aprendem ajustando continuamente parâmetros numéricos que definem o funcionamento do modelo. Esse processo ocorre por meio de algoritmos de otimização que buscam reduzir gradualmente os erros do sistema.

Um dos métodos mais usados é o chamado “descenso de gradiente”. Nesse processo, o algoritmo ajusta os parâmetros passo a passo, movendo-se em direção a regiões onde o erro é menor — como se estivesse descendo por uma paisagem montanhosa em busca de um vale.

Por que evitar a solução “perfeita”

Nos primeiros anos da pesquisa em IA, os cientistas acreditavam que o objetivo deveria ser encontrar a solução perfeita, ou seja, o ponto mais profundo desse “vale matemático”.

Com o tempo, porém, ficou claro que isso nem sempre era desejável. Sistemas que se ajustam demais aos dados de treinamento podem se tornar frágeis e funcionar mal diante de novas situações. Esse problema é conhecido como overfitting.

Hoje se sabe que muitas vezes é melhor que o modelo permaneça em regiões mais amplas e planas do espaço de soluções, onde diferentes configurações funcionam quase igualmente bem.

Essa estratégia torna os modelos mais robustos e capazes de generalizar melhor.

Bolhas que exploram muitas configurações

Quando os pesquisadores analisaram o comportamento das bolhas sob essa perspectiva, perceberam uma semelhança surpreendente.

Em vez de se estabilizarem em uma única configuração rígida, as bolhas continuam se movendo por diversas configurações possíveis que têm energia semelhante.

Esse movimento constante lembra muito o comportamento matemático observado durante o treinamento de sistemas de inteligência artificial.

Em ambos os casos, o sistema explora um espaço de possibilidades sem ficar preso a uma única solução fixa.

Um princípio comum entre física, biologia e IA

A descoberta sugere algo ainda mais intrigante: o conceito matemático de “aprendizado” pode ser um princípio organizador comum em diferentes tipos de sistemas.

Isso inclui não apenas algoritmos de computador, mas também materiais físicos e até estruturas biológicas.

As espumas são frequentemente usadas como modelo para estudar sistemas complexos e densos, incluindo o comportamento de células vivas.

O próximo passo: entender as células

Coração Das Células
© FreePik

Agora os pesquisadores pretendem aplicar essas ideias ao estudo do citoesqueleto — a rede microscópica que sustenta a estrutura interna das células.

Assim como as bolhas em uma espuma, o citoesqueleto está em constante reorganização, mantendo ao mesmo tempo a forma geral da célula.

Se os mesmos princípios matemáticos realmente governarem esses sistemas, isso poderá abrir novas formas de entender materiais adaptativos e processos biológicos.

O estudo também sugere que as ferramentas matemáticas desenvolvidas para inteligência artificial podem ter aplicações muito mais amplas do que se imaginava.

Algo tão simples quanto bolhas de espuma pode, afinal, ajudar a revelar padrões fundamentais que conectam física, biologia e tecnologia.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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