Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas descobriram uma molécula capaz de transformar células cerebrais normais em tumorais — e isso pode mudar o combate ao câncer

Pesquisadores identificaram um “interruptor biológico” que torna certas regiões do cérebro mais vulneráveis ao desenvolvimento de tumores. A descoberta ajuda a explicar por que algumas mutações levam ao câncer enquanto outras nunca se tornam perigosas.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, cientistas tentaram entender um dos maiores mistérios da biologia do câncer: por que algumas células com mutações perigosas acabam formando tumores, enquanto outras permanecem inofensivas por toda a vida.

Agora, um novo estudo do Peter MacCallum Cancer Centre, na Austrália, sugere que a resposta pode ir muito além do DNA. Segundo a pesquisa, publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o surgimento de tumores também depende do “estado biológico” da célula e do ambiente ao seu redor.

Os pesquisadores identificaram uma molécula chamada Chinmo, capaz de funcionar como um verdadeiro interruptor molecular que aumenta a vulnerabilidade de determinadas regiões do cérebro ao desenvolvimento de câncer.

A descoberta pode ajudar a explicar como tumores cerebrais agressivos, como o glioblastoma, conseguem surgir mesmo quando o organismo possui mecanismos naturais para eliminar células defeituosas.

Nem toda mutação vira câncer

Um estudo recente revelou que um vírus modificado pode ativar o sistema imunológico contra um dos cânceres mais letais
© HansCollin

As mutações associadas ao câncer acontecem constantemente no corpo humano. Na maioria das vezes, porém, essas alterações nunca evoluem para uma doença real.

Segundo os cientistas, isso ocorre porque o organismo normalmente consegue detectar e eliminar células anormais antes que elas se tornem perigosas.

O problema é que algumas células conseguem escapar desse controle.

Foi justamente essa diferença que chamou atenção dos pesquisadores liderados pelo Dr. Khanh Nguyen e pela professora Louise Cheng.

A equipe utilizou moscas-da-fruta (Drosophila melanogaster), um dos modelos mais usados em pesquisas sobre desenvolvimento cerebral e câncer. Apesar de parecer improvável, esses insetos compartilham diversos mecanismos genéticos fundamentais com os seres humanos.

Chinmo funciona como um interruptor biológico

Os experimentos mostraram que a molécula Chinmo desempenha um papel decisivo na transformação de células alteradas em células tumorais.

Os cientistas compararam o fenômeno a um interruptor de luz. A mutação genética já existe — como a instalação elétrica dentro da parede —, mas o tumor só aparece quando alguém liga o interruptor. Chinmo seria justamente esse mecanismo de ativação.

Quando a molécula estava presente em determinadas áreas do cérebro, células com mutações tinham muito mais chances de originar tumores.

Por outro lado, quando Chinmo era bloqueada ou desaparecia, o processo cancerígeno era interrompido, mesmo com as mutações ainda presentes.

“Conseguimos mudar completamente o destino de células com a mesma mutação simplesmente ativando ou desativando esse fator”, explicou Louise Cheng.

O cérebro possui regiões mais vulneráveis

Segredo Do Cérebro
© FreePik

Outro ponto importante da descoberta é que Chinmo não atua da mesma maneira em todo o cérebro.

Sua presença depende tanto da região cerebral quanto do estágio de desenvolvimento das células. Isso pode ajudar a explicar por que certos tumores aparecem apenas em áreas específicas, mesmo quando as alterações genéticas são semelhantes.

Os pesquisadores usam uma comparação simples: imagine um prédio com vários andares. Um vazamento de água pode acontecer em qualquer piso, mas só provoca danos graves onde já existe uma fragilidade estrutural.

Nesse caso, a mutação seria o vazamento. Já Chinmo representaria a vulnerabilidade que permite que o problema se espalhe.

Nas 93 amostras analisadas pelo estudo, a presença da molécula foi determinante para definir quais regiões eram mais suscetíveis ao desenvolvimento tumoral.

Hormônios e ambiente também influenciam

A pesquisa também revelou que Chinmo é regulada por um hormônio chamado ecdisona, essencial para o desenvolvimento cerebral das moscas-da-fruta.

Isso reforça uma ideia que vem ganhando força na ciência: o câncer não depende apenas de mutações genéticas isoladas.

Hormônios, sinais químicos, ambiente celular e até o momento exato em que a mutação acontece podem influenciar profundamente o comportamento das células.

Os cientistas compararam o processo a um erro durante uma receita culinária. O erro pode ser o mesmo, mas o resultado muda dependendo da temperatura do forno e do momento em que algo dá errado.

O que isso pode mudar no tratamento do câncer

Os pesquisadores acreditam que mecanismos semelhantes ao Chinmo também possam existir no cérebro humano.

Se futuros estudos confirmarem essa hipótese, cientistas poderão desenvolver terapias capazes de bloquear as condições que permitem que uma célula alterada se transforme em tumor.

Isso representaria uma mudança importante na forma de combater o câncer.

Atualmente, muitos tratamentos se concentram em destruir células tumorais já formadas. O novo estudo propõe outro caminho: impedir que o tumor chegue a surgir.

Para os autores, compreender os chamados “fatores de competência tumoral” pode abrir uma nova geração de estratégias preventivas contra cânceres cerebrais agressivos.

E embora ainda existam muitas perguntas sem resposta, a descoberta reforça uma ideia cada vez mais importante na biologia moderna: o DNA sozinho não determina o destino de uma célula.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados