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Ciência

Cientistas ficam surpresos: estudo mostra que grandes primatas também conseguem imaginar objetos inexistentes e simular situações como humanos

Durante décadas, acreditou-se que a imaginação — a capacidade de conceber algo que não está presente — era exclusivamente humana. Um novo estudo publicado na revista Science desafia essa ideia ao mostrar que bonobos conseguem representar mentalmente objetos imaginários e distinguir ficção de realidade.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A linha que separa humanos de outros animais já foi redesenhada várias vezes pela ciência. Primeiro, descobriu-se que chimpanzés usam ferramentas. Depois, que demonstram empatia e complexas estruturas sociais. Agora, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, apresentam evidências de que grandes primatas também podem imaginar — uma habilidade que sempre foi considerada um dos pilares da mente humana.

O experimento que testou a imaginação

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© Pexels

O estudo, publicado na revista Science, foi conduzido por Christopher Krupenye, professor do Departamento de Ciências Psicológicas e do Cérebro da Universidade Johns Hopkins, em parceria com Amalia Bastos, da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Os pesquisadores trabalharam com Kanzi, um bonobo de 43 anos que vive no centro de pesquisa Ape Initiative. Em uma série de três experimentos, eles testaram se o primata seria capaz de acompanhar mentalmente situações envolvendo objetos inexistentes.

No primeiro teste, dois copos transparentes vazios foram colocados sobre uma mesa ao lado de uma jarra também vazia. O experimentador simulou despejar “suco imaginário” nos copos e depois fingiu esvaziar apenas um deles. Ao ser questionado sobre onde estava o suco, Kanzi apontou majoritariamente para o copo que, na encenação, ainda conteria o líquido fictício.

Diferenciando o real do imaginário

Para garantir que o bonobo não estivesse apenas reagindo aleatoriamente, os pesquisadores realizaram um segundo experimento. Desta vez, um copo continha suco de verdade, enquanto o outro representava o líquido imaginário.

Quando perguntado qual queria, Kanzi quase sempre escolheu o suco real. Isso indicou que ele não apenas acompanhava a simulação mental, mas também distinguia claramente entre o que existia de fato e o que era apenas encenado.

No terceiro teste, o conceito foi repetido com “uvas imaginárias”. O pesquisador fingia retirar uma uva de um recipiente vazio e colocá-la em um dos dois frascos. Após simular a retirada de um deles, Kanzi novamente apontava corretamente onde a fruta fictícia deveria estar.

Embora não tenha acertado todas as vezes, seu desempenho ficou consistentemente acima do que seria esperado pelo acaso.

Um novo capítulo iniciado por Jane Goodall

Morre Jane Goodall, A Mulher Que Mudou Para Sempre A Forma Como Entendemos Os Chimpanzés E A Natureza P
© X-@AndreiaPrate

A descoberta dialoga com um marco histórico da primatologia. Na década de 1960, a pesquisadora britânica Jane Goodall revolucionou a ciência ao demonstrar que chimpanzés fabricavam e utilizavam ferramentas na Tanzânia. Até então, acreditava-se que essa habilidade definia o que era ser humano.

Segundo Krupenye, aquele achado forçou uma redefinição conceitual. Agora, a possibilidade de que primatas consigam imaginar amplia ainda mais essa revisão. Se a imaginação também estiver presente nesses animais, a diferença cognitiva entre humanos e outros grandes primatas pode ser menor do que se supunha.

Implicações evolutivas profundas

Os pesquisadores sugerem que a capacidade de simular mentalmente situações pode remontar a um ancestral comum entre humanos e grandes primatas, que viveu entre 6 e 9 milhões de anos atrás.

Isso significa que as raízes da imaginação podem ser muito mais antigas do que se acreditava. A habilidade de representar mentalmente algo ausente é essencial para planejar, antecipar cenários e compreender intenções — capacidades associadas à complexidade social e cognitiva.

Para Bastos, o resultado é empolgante porque indica que a vida mental dos primatas não está limitada ao presente imediato.

O que vem a seguir

A equipe pretende ampliar os estudos para outros indivíduos e espécies, investigando se essa capacidade é generalizada entre grandes primatas ou se varia de acordo com experiências e contexto.

Também há interesse em explorar outras dimensões da imaginação, como a capacidade de pensar no futuro ou inferir estados mentais de outros indivíduos — algo relacionado à chamada “teoria da mente”.

Se confirmadas em novos experimentos, essas evidências podem transformar a forma como entendemos a mente animal. E reforçam um ponto defendido há décadas por Jane Goodall: os grandes primatas possuem uma complexidade mental muito mais sofisticada do que costumávamos admitir.

A imaginação pode não ser exclusivamente humana. E isso muda — mais uma vez — o que pensamos saber sobre nós mesmos.

 

[ Fonte: Ok Diario ]

 

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