Para chegar a outra estrela, uma nave precisaria atravessar distâncias tão gigantescas que transportar combustível suficiente se torna um problema monumental. Existe, porém, uma alternativa que dispensa tanques convencionais e aproveita algo disponível praticamente durante toda a viagem: luz. Dois experimentos da Universidade Cornell acabaram de testar peças fundamentais dessa ideia no espaço. Eles ainda não nos levam às estrelas, mas ajudam a resolver problemas que precisam ser vencidos muito antes disso.
A ideia parece impossível até lembrar que a luz também exerce pressão
O princípio das velas solares ou velas de luz lembra o funcionamento de um veleiro.
No oceano, o vento empurra uma vela. No espaço, são os fótons que exercem uma pressão minúscula ao atingir uma superfície refletora.
Cada impulso é extremamente pequeno, mas existe uma vantagem: no vácuo, ele pode continuar atuando por longos períodos. A nave ganha velocidade gradualmente sem precisar consumir combustível da mesma maneira que um sistema de propulsão convencional.
Para funcionar, entretanto, a vela precisa ser extremamente fina, leve e grande em comparação com a massa da pequena nave que transporta.
Foi isso que o Space Systems Design Studio (SSDS), da Universidade Cornell, decidiu investigar com dois experimentos: Alpha CubeSat e Sailing to the Stars.
Ambos foram enviados à Estação Espacial Internacional no fim de 2025, pelas missões NG-23 e Crew-11.
Os testes não pretendiam demonstrar uma viagem interestelar. O desafio era muito mais imediato: descobrir se estruturas tão delicadas podem ser implantadas, operar e se comunicar adequadamente no ambiente espacial.
Uma pequena nave mostrou o que acontece quando a vela deixa o laboratório
O Alpha utilizou um CubeSat 1U financiado pela NASA para testar uma vela de luz em órbita baixa da Terra.
Além do próprio sistema, a missão colocou à prova suas comunicações. Utilizando a rede aberta TinyGS, radioamadores em diferentes regiões conseguiram receber sinais enviados pela pequena espaçonave.
Segundo a equipe, foi possível transmitir pacotes completos de dados da órbita até estações terrestres.
Mas a missão também mostrou uma das dificuldades desse tipo de veículo.
Mesmo em órbita baixa existe uma atmosfera extremamente rarefeita. Para satélites convencionais, seu efeito pode ser pequeno, mas uma vela combina grande área com pouquíssima massa, tornando-se especialmente sensível ao arrasto atmosférico.
A estrutura acabou sendo destruída durante sua interação com a atmosfera.
Enquanto o Alpha enfrentava as condições reais da órbita, outro experimento estudava uma etapa igualmente delicada: abrir corretamente uma superfície ultrafina no espaço.
Seis velas ajudaram a observar um momento crítico
O experimento Sailing to the Stars realizou testes no ambiente da Estação Espacial Internacional e conseguiu implantar seis velas.
Os pesquisadores registraram o processo para analisar como essas estruturas se comportam em microgravidade.
Isso é fundamental porque uma futura sonda não terá uma equipe ao lado para corrigir uma vela que se abriu de maneira errada. O mecanismo precisará funcionar automaticamente depois que a espaçonave estiver no espaço.
Os dois projetos, portanto, investigaram problemas complementares.
O Alpha colocou uma pequena nave equipada com vela em órbita e testou sua comunicação. Sailing to the Stars permitiu estudar de maneira controlada a dinâmica de implantação dessas superfícies.
Resolver essas etapas abre espaço para uma experiência muito mais ambiciosa: usar efetivamente a pressão da luz para modificar a trajetória de uma nave.
Uma futura missão poderia tentar elevar sua órbita ou realizar manobras apenas aproveitando fótons.
E existe uma maneira de levar esse conceito muito além da luz natural do Sol.
Um laser poderia transformar uma pequena pressão em algo muito maior
Em vez de depender somente da radiação solar, uma vela poderia receber um feixe de laser direcionado.
Com potência suficiente, essa fonte forneceria um impulso mais intenso e controlável, permitindo acelerar sondas extremamente pequenas sem obrigá-las a carregar enormes reservas de combustível.
Antes de qualquer tentativa interestelar, a tecnologia poderia ser explorada em missões dentro do próprio Sistema Solar, inclusive em direção à Lua ou a Marte.
Mas o horizonte mais ambicioso está muito mais distante.
Projetos conceituais como o Breakthrough Starshot estudam a possibilidade de usar lasers extremamente potentes para acelerar pequenas sondas equipadas com velas rumo a outros sistemas estelares.
Eles não demonstraram que já podemos viajar até outra estrela, mas testaram em condições espaciais algumas das tecnologias básicas que uma futura nave movida pela pressão da luz precisaria dominar.
Ainda faltam enormes desafios de aceleração, orientação, comunicação e sobrevivência.
Antes de cruzar os anos-luz que nos separam de outra estrela, porém, é preciso fazer algo muito mais simples: garantir que uma vela ultraleve consiga abrir, funcionar e responder exatamente como previsto a poucas centenas de quilômetros da Terra.