Depois de meses de euforia em torno da inteligência artificial, Wall Street começa a pisar no freio. Analistas seguem otimistas com o potencial de longo prazo da tecnologia, mas avaliam que, no curto prazo, algumas ações já embutem expectativas elevadas demais. Nesta semana, relatórios de bancos e corretoras trouxeram rebaixamentos, alertas e recomendações mais seletivas para gigantes do setor.
Microsoft leva rebaixamento e enfrenta “hora de descanso”

A Microsoft recebeu um raro rebaixamento. O banco Stifel reduziu a recomendação das ações de “compra” para “manter”, afirmando que o mercado está excessivamente otimista com as projeções para 2027. O preço-alvo caiu de US$ 540 para US$ 392.
Segundo o analista Brad Reback, limitações persistentes de capacidade na nuvem Azure, aumento expressivo dos investimentos e competição mais dura em IA dificultam uma aceleração no curto prazo. Ele destaca o avanço do Google Cloud, impulsionado pelo Gemini, e o crescimento da Anthropic como fatores que pressionam a liderança da Microsoft em nuvem.
Além disso, o Stifel elevou sua estimativa de gastos de capital da empresa para cerca de US$ 200 bilhões no ano fiscal de 2027, bem acima do consenso de mercado. Esse nível de investimento, segundo o banco, tende a pressionar margens e limitar o potencial de valorização das ações no curto prazo.
Amazon perde fôlego na nuvem, diz DA Davidson
A Amazon também entrou na lista de revisões negativas. A corretora DA Davidson rebaixou a ação para “neutro”, afirmando que a empresa estaria “perdendo a liderança” em computação em nuvem.
O analista Gil Luria apontou que a AWS cresce mais lentamente do que rivais como Microsoft Azure e Google Cloud. Enquanto o Google acelera com força na IA, a Amazon sofre, segundo o relatório, pela ausência de um grande laboratório próprio de modelos de fronteira e por não ter uma parceria dominante como a da Microsoft com a OpenAI.
O banco também expressou preocupação com o varejo da Amazon em um “novo internet guiado por chatbots”, dominado por ferramentas como Gemini e ChatGPT, o que poderia reduzir tráfego e receitas de publicidade.
Tesla: potencial gigantesco em robotáxis, mas pressão no curto prazo

No caso da Tesla, o tom é mais equilibrado. A Wolfe Research vê um enorme potencial de longo prazo no negócio de robotáxis, que poderia gerar até US$ 250 bilhões em receitas anuais em 2035, caso a adoção de veículos autônomos avance como esperado.
Por outro lado, o banco alerta que, no curto prazo, margens e lucros podem sofrer com custos mais altos, mudanças no modelo de monetização do Full Self-Driving e investimentos pesados em IA, incluindo robôs humanoides e autonomia total. Ainda assim, a Wolfe mantém uma visão construtiva, destacando um fluxo constante de catalisadores nos próximos anos.
AMD vira aposta de longo prazo após queda forte
A AMD teve uma das maiores quedas recentes no setor, mas a Truist Securities vê isso como oportunidade. A corretora recomendou “comprar na fraqueza”, afirmando que o crescimento de longo prazo segue intacto, especialmente em data centers e IA.
Mesmo reconhecendo distorções pontuais nos resultados recentes, o analista William Stein acredita que a empresa pode sustentar um crescimento robusto até o fim da década. A Truist elevou o preço-alvo da ação e reforçou que a adoção de GPUs e processadores voltados para IA segue forte.
Palantir ainda parece cara, alerta Jefferies
Já a Palantir Technologies enfrenta um alerta mais duro. A Jefferies afirmou que, apesar da queda acumulada das ações, o papel ainda negocia a múltiplos elevados em comparação com outras empresas de software.
O analista Brent Thill deixou claro que a preocupação não está nos fundamentos, que melhoraram significativamente, mas na valuation. Segundo ele, o prêmio embutido torna a ação muito sensível a qualquer mudança de humor dos investidores em relação à IA ou ao setor de tecnologia como um todo.
Um novo momento para o setor de IA
Em conjunto, os relatórios indicam uma mudança de fase. A inteligência artificial continua sendo vista como transformadora, mas o mercado começa a diferenciar melhor vencedores, prazos e riscos. Custos elevados, competição crescente e expectativas muito altas entram no radar dos analistas.
Para investidores, o recado é claro: o ciclo de entusiasmo não acabou, mas a seletividade aumentou. A IA segue no centro das estratégias, agora acompanhada de uma dose maior de realismo sobre retornos e timing.
[ Fonte: Investing ]