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Tecnologia

Contra a dopamina das redes: como recuperar a concentração em tempos de hiperconectividade, segundo Enrique Avogadro

Em meio à avalanche de notificações e estímulos digitais, manter o foco virou um desafio cotidiano. Para o gestor cultural Enrique Avogadro, o antídoto pode estar em práticas simples: ler sem interrupções, escrever à mão e resgatar rituais analógicos que exigem presença real.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Vivemos cercados por telas. Celular, streaming, redes sociais e mensagens instantâneas disputam nossa atenção o tempo todo. O resultado é uma sensação constante de dispersão — e a dificuldade crescente de manter a concentração em tarefas simples, como ler um livro.

Em entrevista ao portal Infobae, o gestor cultural Enrique Avogadro, ex-ministro de Cultura da Cidade de Buenos Aires, refletiu sobre os impactos da hiperconectividade na memória e na atenção. Para ele, a saída não é rejeitar o digital, mas reequilibrar a rotina com experiências analógicas que introduzam “fricção” no cotidiano.

A dopamina das redes e a perda de foco

Menores Sem Redes Sociais
© X – @AlertaNews24

Avogadro aponta que o uso constante do celular altera nossa relação com o tempo e com a concentração. “Cada vez nos custa mais ler porque o telefone está ao lado e nos chama o tempo todo”, afirmou.

As redes sociais funcionam como máquinas de estímulo rápido. Curtidas, vídeos curtos e notificações ativam circuitos de recompensa no cérebro, associados à liberação de dopamina. O problema não é a tecnologia em si, mas o padrão de consumo fragmentado e incessante.

Quando alternamos continuamente entre aplicativos, treinamos o cérebro para a interrupção. A leitura profunda, que exige continuidade e silêncio, acaba se tornando mais difícil.

O valor da “fricção” analógica

Para Avogadro, a solução passa por recuperar pequenas fricções — atividades que exigem tempo, escolha e presença.

Ele cita um exemplo doméstico: em vez de colocar música no streaming durante o jantar, escolher um vinil físico. “Não há infinitas opções. Você precisa decidir entre alguns discos”, explicou, mencionando artistas como Mercedes Sosa, Charly García e Soda Stereo.

Colocar o disco, virar o lado e ouvir o álbum completo exige atenção. Essa limitação, segundo ele, aumenta o compromisso com a experiência.

A lógica é simples: quando tudo é imediato e ilimitado, a tendência é trocar rapidamente de estímulo. Quando há barreiras mínimas, há maior envolvimento.

Escrita à mão e memória

Outro ponto destacado foi a escrita manual. Segundo Avogadro, escrever à mão ajuda a recuperar a concentração porque exige coordenação motora, ritmo e presença.

Diferentemente da digitação rápida e fragmentada, o ato de escrever em papel desacelera o pensamento. Pesquisas na área de neurociência já indicaram que a escrita manual pode favorecer a retenção de informações e a consolidação da memória.

Em um mundo de anotações digitais e mensagens instantâneas, esse gesto simples pode funcionar como um treino de foco.

Fragmentação cultural e fim dos “clássicos”

Avogadro também abordou o impacto da tecnologia na cultura. Para ele, a audiência fragmentada dificulta a construção de obras que se tornem clássicos duradouros.

Em outras épocas, era comum que grande parte do público consumisse os mesmos discos ou filmes durante meses. Hoje, a oferta infinita e a troca constante de estímulos tornam mais difícil a permanência.

Mesmo fenômenos globais, como Bad Bunny ou Rosalía, competem com um fluxo contínuo de novidades.

A intensidade substitui a duração. Um tema rapidamente dá lugar a outro.

O antídoto possível

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© Pexels – iStock

A proposta de Avogadro não é abandonar o mundo digital, mas reservar momentos intencionais para experiências presenciais.

Ir ao teatro, assistir a um filme no cinema ou jogar jogos de tabuleiro são exemplos de atividades que exigem envolvimento contínuo. “Quando você está no teatro, não pode fazer outra coisa”, observou.

Criar pequenos rituais analógicos — mesmo que por algumas horas na semana — pode ajudar a reconstruir vínculos, fortalecer a memória e recuperar a capacidade de concentração.

Em tempos de hiperconectividade, talvez o desafio não seja acelerar ainda mais, mas aprender a desacelerar com propósito.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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