Pular para o conteúdo
Ciência

Crianças da Era do Gelo Usavam Piercings na Bochecha, Sugerem Dentes de 29.000 Anos

Marcas incomuns nos dentes de pessoas do Paleolítico na Europa Central intrigaram cientistas por décadas, mas uma nova pesquisa pode finalmente revelar a causa.
Por

Tempo de leitura: 2 minutos

Diversos restos humanos descobertos na Europa Central, datados da última Era do Gelo, apresentam abrasões peculiares nos dentes que desafiaram a compreensão dos especialistas. Agora, um pesquisador em Portugal propôs uma explicação intrigante: piercings na bochecha.

John C. Willman, do Laboratório de Pré-história (CIAS) da Universidade de Coimbra, sugere que os Pavlovianos—uma cultura caçadora-coletora que viveu na Europa Central entre 25.000 e 29.000 anos atrás—usavam labrets, um tipo de piercing facial. Em um estudo publicado em 23 de janeiro no Journal of Paleolithic Archaeology, o antropólogo biológico argumenta que os labrets podem ter sido responsáveis pelo desgaste dentário incomum observado nos restos humanos pavlovianos com dentes bem preservados.

Evidências de um Costume Ancestral

“Durante meu doutorado, fiquei fascinado pelo desgaste estranho nas superfícies dos caninos e molares dos indivíduos de sítios pavlovianos. Além do desgaste normal na superfície mastigatória, eles apresentam planos de desgaste plano nas superfícies ‘bucais’ (voltadas para a bochecha) dos dentes”, explicou Willman em um blog.

Essas marcas são semelhantes ao desgaste causado por labrets e outros piercings faciais observados em registros bioarqueológicos, etnográficos e clínicos. Estudos anteriores propuseram diferentes explicações, como a hipótese de que os Pavlovianos mantinham pequenas pedras na boca para estimular a salivação e aliviar a sede. Embora Willman não tenha sido o primeiro a sugerir a hipótese dos piercings, ele realizou novas análises em dentes originais e em fotografias de restos que não pôde examinar pessoalmente.

Piercings Como Marco de Transição

Willman concluiu que os labrets eram a causa mais provável do desgaste bucal observado nos indivíduos pavlovianos estudados. Além disso, ele destacou que os piercings poderiam ter afetado o alinhamento dos dentes ao longo do tempo, funcionando de maneira oposta ao uso de aparelhos ortodônticos modernos.

Os pesquisadores identificaram as abrasões dentárias na maioria dos adultos e adolescentes pavlovianos com dentes bem preservados, e até mesmo em crianças de seis a dez anos de idade. Isso sugere que o uso dos labrets pode ter feito parte de um ritual de passagem associado à idade.

“As crianças e adolescentes provavelmente recebiam um labret em um lado do rosto desde cedo, enquanto os adultos geralmente apresentavam evidências de labrets em ambos os lados”, explicou Willman.

A Falta de Evidências Materiais

Uma limitação para a teoria dos piercings na bochecha é a ausência de labrets identificados em sepultamentos pavlovianos. No entanto, Willman argumenta que os labrets poderiam ter sido feitos de madeira ou couro, materiais que se deterioram com o tempo, ou que os Pavlovianos simplesmente não enterravam seus mortos com os piercings.

“Independentemente de futuras pesquisas confirmarem ou não essa hipótese, as marcas bucais representam uma manifestação física de um comportamento pavloviano difundido, marcando a experiência de vida desses indivíduos”, destacou Willman no estudo.

Se você achava que piercings na bochecha eram uma tendência moderna, pense novamente!

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados