À primeira vista, parece simples: lançar uma pedra de granito sobre o gelo e guiá-la até um alvo. Mas o curling — esporte tradicional dos Jogos Olímpicos de Inverno — esconde um enigma que intriga físicos há mais de 100 anos. A pedra gira, desliza e, de forma aparentemente contraintuitiva, curva na mesma direção do giro. Por quê? A resposta ainda está em disputa.
Um experimento que não deveria funcionar assim

Se você girar um objeto sobre uma superfície comum, como um copo em cima de um tapete, ele tende a desviar para o lado oposto ao sentido da rotação. No curling, acontece o contrário. Se a pedra é lançada girando no sentido horário, ela termina curvando para a direita. Se gira para a esquerda, curva para a esquerda.
Isso contraria o que a física básica sugeriria. E é justamente aí que começa o mistério.
O curling surgiu no século 16, em lagos congelados da Escócia, e hoje é modalidade olímpica consolidada. Ainda assim, cientistas admitem que não compreendem completamente os mecanismos por trás do movimento das pedras.
A explicação envolve uma combinação complexa de formato da pedra, textura do gelo e atrito variável. As pedras, feitas de granito especial extraído no Reino Unido, têm base levemente côncava, com uma faixa de contato estreita chamada “faixa de rolamento”. É apenas essa borda que toca o gelo.
Já o gelo não é liso como uma pista de patinação comum. Ele é “granulado” antes das partidas, recebendo pequenas gotículas congeladas que criam uma superfície irregular. Paradoxalmente, essa aspereza reduz o contato total com a pedra e, portanto, diminui o atrito.
Conforme a pedra desliza, o calor gerado pelo atrito cria uma finíssima camada de água, funcionando como lubrificante. No início do percurso, a pedra praticamente “aquaplana” em linha reta. À medida que desacelera, essa camada diminui — e é nesse momento que a curvatura começa a aparecer.
Teorias, disputas e um século de tentativas

A primeira teoria formal surgiu em 1924, quando o cientista canadense E. L. Harrington propôs que diferenças de atrito entre os lados esquerdo e direito explicariam a curva. Como um lado da pedra gira na mesma direção do deslocamento e o outro em sentido oposto, haveria pequenas variações de fricção.
Mas o modelo não explicava todos os detalhes observados em partidas reais.
Ao longo das décadas, surgiram diversas hipóteses: modelo da camada de água, efeito limpa-neve, mecanismo de deslizamento e aderência, guiamento por arranhões microscópicos no gelo. Nenhuma conseguiu consenso absoluto.
Mais recentemente, o físico japonês Jiro Murata adotou uma abordagem diferente. Em vez de partir diretamente para equações, começou com filmagens extremamente precisas do movimento das pedras. Ele observou que elas parecem girar em torno de um ponto específico, quase como um pêndulo.
Segundo Murata, a rotação não empurra a pedra lateralmente de forma direta. Ela cria uma diferença de atrito que funciona como um ponto de pivô. É como correr segurando um poste ao lado: você naturalmente fará uma curva ao redor dele.
Essa teoria também ajudou a explicar o papel da varrição — o famoso uso das vassouras. Ao esfregar o gelo à frente da pedra, os jogadores aumentam a lubrificação e reduzem o atrito local. Experimentos recentes indicam que varrer na parte externa da curva tende a acentuar o ângulo do desvio.
Tecnologia, regras e um debate ainda aberto
A busca por vantagem técnica já gerou controvérsia. Em 2015, materiais de escova que arranhavam o gelo foram acusados de oferecer vantagem injusta, episódio conhecido como “broomgate”. No ano seguinte, a federação internacional proibiu certos tipos de tecido, limitando as especificações das vassouras.
Mesmo com regulações rígidas, técnicas continuam evoluindo. Em 2026, novas restrições foram impostas a movimentos de varrição considerados capazes de alterar indevidamente a velocidade da pedra.
Apesar de um século de pesquisas, a física do curling ainda não foi completamente decifrada. Variáveis como temperatura, umidade, microfraturas do gelo e composição química da superfície continuam sendo investigadas.
O que torna o esporte tão fascinante é justamente essa mistura de precisão estratégica e incerteza científica. Enquanto atletas refinam técnicas milimétricas, físicos continuam tentando responder à pergunta central: por que a pedra curva exatamente daquela maneira?
Por ora, o curling segue sendo um raro exemplo de esporte tradicional que ainda desafia a física moderna.
[Fonte: Correio Braziliense]