Pular para o conteúdo
Ciência

Durante 66 milhões de anos tentamos entender por que a Terra esfriou após os dinossauros — agora novos dados mostram que a química dos oceanos teve um papel decisivo nessa virada climática

Um estudo internacional reconstruiu, com detalhes inéditos, a evolução do clima global desde a extinção dos dinossauros. A surpresa veio do fundo do mar: a queda prolongada do cálcio dissolvido nos oceanos pode ter reduzido o CO₂ atmosférico e “baixado o termostato” do planeta, conduzindo a Terra de um mundo tropical a um clima com polos gelados.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Há décadas, cientistas tentam explicar como a Terra passou de um planeta quente, com florestas avançando até altas latitudes, para o cenário atual, marcado por calotas polares e temperaturas mais moderadas. Essa transição ocorreu ao longo dos últimos 66 milhões de anos, desde o fim da era dos dinossauros. Agora, pesquisadores da Universidade de Southampton apontam um fator até então subestimado: mudanças profundas na química dos oceanos.

O oceano como protagonista do resfriamento global

Com o maior cérebro do mundo e uma mente ainda cercada de mistérios, o cachalote é um gigante das profundezas que fascina cientistas e desafia o entendimento humano.
© Pexels – Blaque X

O novo trabalho, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra que o resfriamento de longo prazo do planeta não dependeu apenas da atmosfera ou do movimento dos continentes. Segundo a equipe internacional liderada pela Universidade de Southampton, houve uma queda superior a 50% nos níveis de cálcio dissolvido na água do mar ao longo do período Cenozoico.

Essa transformação alterou a forma como os oceanos trocam carbono com a atmosfera. Em termos simples: menos cálcio significou maior capacidade de reter carbono no sistema marinho, reduzindo gradualmente o dióxido de carbono atmosférico — o principal gás de efeito estufa — e favorecendo a diminuição das temperaturas globais.

Os cientistas destacam que, logo após a extinção dos dinossauros, os níveis de cálcio nos oceanos eram aproximadamente o dobro dos atuais. Com o passar de milhões de anos, essa concentração caiu de forma contínua, mudando os processos biogeoquímicos marinhos e abrindo caminho para um planeta mais frio.

Microfósseis que guardam a memória do clima

Para chegar a essas conclusões, o grupo analisou foraminíferos — organismos microscópicos que vivem nos oceanos e deixam registros químicos em suas conchas fossilizadas. Recuperados de sedimentos do fundo do mar, esses microfósseis funcionam como arquivos naturais da composição da água marinha ao longo do tempo.

A partir deles, os pesquisadores reconstruíram a evolução do cálcio e do magnésio com alta resolução temporal. Esses dados foram então integrados a modelos computacionais do ciclo do carbono, permitindo simular como pequenas mudanças na química oceânica podem produzir efeitos climáticos de grande escala.

O autor principal do estudo, o geocientista David Evans, explica que, quando o cálcio era abundante, os oceanos tendiam a armazenar menos carbono dissolvido e a liberar mais CO₂ para a atmosfera. À medida que esses níveis diminuíram, o processo se inverteu: o sistema marinho passou a capturar mais carbono, contribuindo para uma queda estimada entre 15 °C e 20 °C na temperatura média global ao longo de dezenas de milhões de anos.

Corais, plâncton e o sequestro natural de carbono

Os modelos indicam que a redução do cálcio influenciou diretamente organismos marinhos como corais e plâncton, responsáveis por fixar carbono e enterrá-lo nos sedimentos na forma de carbonato de cálcio. Esse mecanismo remove CO₂ da atmosfera e o aprisiona por escalas de tempo geológicas.

Segundo o coautor Xiaoli Zhou, a diminuição do cálcio mudou a taxa de produção e deposição desses carbonatos no fundo oceânico. Na prática, isso ajudou a “trancar” o dióxido de carbono fora da atmosfera, ajustando lentamente o clima do planeta.

Esse processo não age sozinho, mas se soma a outros conhecidos, como o intemperismo de rochas silicáticas, que também consome CO₂. A novidade do estudo é mostrar que a composição iônica da água do mar foi um fator adicional — e até agora pouco valorizado — nesse equilíbrio climático.

Processos profundos da Terra entram em cena

A pesquisa também conecta a queda do cálcio oceânico a mudanças geológicas de larga escala, especialmente à desaceleração da expansão do fundo marinho. Esse fenômeno, ligado à formação de nova crosta oceânica em regiões vulcânicas, controla parte do intercâmbio químico entre as rochas e a água do mar.

Com a redução dessa atividade, o aporte de cálcio aos oceanos diminuiu gradualmente, alterando sua composição. Para o professor Yair Rosenthal, outro coautor do trabalho, esses processos profundos costumam ficar fora do radar dos estudos climáticos tradicionais, mas podem ser decisivos. A nova evidência sugere que transformações no interior do planeta ajudaram a guiar grandes mudanças climáticas ao longo do tempo geológico.

Um sistema Terra totalmente interligado

Terra Em ‘tamanho Real’
© Unsplash – NASA

Os autores ressaltam que ainda não é possível afirmar com certeza absoluta uma relação causal direta entre o cálcio oceânico e o CO₂ atmosférico. Mesmo assim, as simulações mostram que essa conexão pode ter sido crucial, dependendo das retroalimentações do sistema climático e das taxas de enterramento de carbono.

Mais do que resolver um mistério antigo, o estudo reforça uma visão integrada do planeta, em que oceanos, geologia, biologia e atmosfera operam como partes de um mesmo sistema. Ao revelar o papel ativo do mar na regulação térmica da Terra, a pesquisa oferece novas pistas para entender o passado — e ferramentas valiosas para aprimorar projeções sobre o futuro climático em um mundo que volta a elevar rapidamente seus níveis de dióxido de carbono.

Sessenta e seis milhões de anos depois, o oceano emerge não como figurante, mas como um dos grandes arquitetos do clima global.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados