A ideia de congelar a vida para salvá-la no futuro deixou de ser apenas um conceito teórico. A mesma empresa que chamou atenção ao anunciar a criação de lobos semelhantes ao extinto lobo-terrível agora quer preservar material genético de espécies ameaçadas antes que desapareçam. O projeto, sediado em Dubai, combina ciência de ponta, conservação ambiental e uma forte aposta em biotecnologia como resposta à crise global da biodiversidade.
Um biobanco no coração de Dubai
https://x.com/colossal/status/2019793683504120077?s=20
A Colossal Biosciences anunciou que está criando um biobanco de congelamento para espécies ameaçadas dentro do Museu do Futuro. A iniciativa será desenvolvida em parceria com o Laboratório Mundial de Preservação e pretende armazenar milhões de amostras de tecidos e células de cerca de 10 mil espécies.
Segundo a empresa, o foco inicial inclui as 100 espécies mais ameaçadas do planeta, além de espécies em risco nos próprios Emirados Árabes Unidos. O objetivo é criar um repositório genético capaz de apoiar pesquisas científicas, programas de conservação e, em casos extremos, tentativas futuras de reintrodução de espécies extintas.
O caso do lobo-terrível e as controvérsias

Em abril, a Colossal ganhou destaque internacional ao anunciar que havia “ressuscitado” o lobo-terrível, uma espécie extinta há milhares de anos. O experimento resultou em três lobos criados a partir de DNA antigo, clonagem e edição genética aplicada a genes de um lobo-cinzento moderno.
Especialistas, no entanto, foram cautelosos. Eles ressaltam que não se trata de uma cópia genética idêntica, mas de um híbrido com aparência semelhante ao animal extinto. Ainda assim, o feito colocou a empresa no centro do debate sobre até onde a ciência pode — ou deve — ir quando o assunto é a extinção.
Conservação hoje, possibilidade amanhã
Com sede em Dallas, a Colossal afirma que o biobanco terá um papel duplo. As amostras servirão tanto para pesquisas voltadas à conservação de espécies ameaçadas quanto como uma espécie de “backup biológico”, caso algumas delas desapareçam completamente da natureza.
Em entrevista à CNN, o cofundador e CEO Ben Lamm comparou o projeto ao Banco Mundial de Sementes de Svalbard, no Ártico, que preserva cerca de 1,4 milhão de amostras vegetais. Para ele, os animais precisam de um sistema de proteção semelhante.
Lamm argumenta que a perda de espécies acontece em um ritmo mais rápido do que os esforços tradicionais de conservação conseguem acompanhar, tornando necessária uma estratégia complementar baseada em biotecnologia.
A dimensão da crise da biodiversidade

Os números ajudam a explicar a urgência. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza reúne mais de 48 mil espécies ameaçadas, dentro de um universo de cerca de 172 mil avaliadas. Muitas outras sequer foram formalmente descritas pela ciência.
Segundo a Colossal, preservar múltiplas amostras de cada espécie é essencial para manter a diversidade genética, fator decisivo para a sobrevivência de populações no longo prazo. Lamm também destaca que muitas espécies desempenham papéis-chave nos ecossistemas, e sua perda pode desencadear efeitos em cascata.
Não é a única iniciativa no mundo
Apesar da escala do projeto em Dubai, ele não é inédito. O Instituto de Pesquisa em Conservação do Zoológico de San Diego mantém desde 1975 um “Zoo Congelado” com material genético de mais de 1.300 espécies e subespécies. A partir dessas amostras, cientistas já conseguiram clonar animais ameaçados, como o cavalo de Przewalski e o furão-de-patas-negras.
Outras iniciativas, como a organização britânica The Frozen Ark, também acumulam dezenas de milhares de amostras genéticas para fins científicos e de preservação.
Limites, governança e cautela científica

Especialistas alertam que a criopreservação não substitui a conservação tradicional. Dusko Ilic, professor de ciência de células-tronco do King’s College London, afirmou que ainda faltam detalhes públicos para avaliar plenamente o biobanco da Colossal, como regras de acesso, financiamento de longo prazo e integração com políticas ambientais.
Ele ressalta que biobancos devem ser vistos como ferramentas complementares, não como soluções únicas. Organizações de conservação também destacam a necessidade de governança internacional, coordenação entre países e respeito a acordos ambientais globais.
Com investimento recente de US$ 60 milhões dos Emirados Árabes Unidos e mais de US$ 600 milhões captados desde 2021, a Colossal afirma que este é apenas o primeiro passo de uma futura rede global de biobancos. A proposta é ambiciosa: preservar hoje para tentar garantir amanhã aquilo que o planeta corre o risco de perder.
[ Fonte: CNN ]