Há décadas, astrônomos observam corpos distantes do Sistema Solar com um formato estranho e quase familiar: duas esferas unidas, lembrando bonecos de neve. O padrão aparece com frequência suficiente para levantar suspeitas sobre sua origem. Agora, uma simulação computacional inédita conseguiu reproduzir esse desenho de forma natural — e o resultado pode obrigar a comunidade científica a rever como esses objetos primordiais realmente se formaram.
A forma curiosa que se repete além de Netuno

Objetos localizados no distante Cinturão de Kuiper — a vasta região gelada além de Netuno — vêm intrigando pesquisadores há anos. Ali vivem remanescentes praticamente intactos do nascimento do Sistema Solar, incluindo cometas, planetas anões e os chamados planetesimais.
Entre esses corpos, cerca de 10% apresentam uma morfologia peculiar: dois lóbulos arredondados conectados, formando o que os cientistas chamam de “binários de contato”. A frequência relativamente alta desse formato sempre foi um problema para as teorias tradicionais.
Modelos anteriores geralmente tratavam colisões como fusões entre massas fluidas, que tenderiam a produzir objetos mais esféricos. Isso dificultava explicar por que tantas estruturas mantinham dois “blocos” bem definidos.
Foi nesse ponto que entrou o trabalho liderado por pesquisadores da Michigan State University. O estudante de pós-graduação Jackson Barnes desenvolveu a primeira simulação capaz de gerar naturalmente essa geometria por meio de colapso gravitacional — sem recorrer a eventos raros ou condições extremamente específicas.
Usando recursos de computação de alto desempenho do Institute for Cyber-Enabled Research, o modelo permitiu que os objetos mantivessem resistência estrutural durante a formação. Em vez de se fundirem completamente, eles podiam se acomodar suavemente um sobre o outro, preservando os dois lóbulos característicos.
O estudo, publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, oferece uma explicação elegante para um mistério que persistia havia décadas.
Evidências reais dão peso à nova hipótese
A discussão ganhou força após imagens detalhadas obtidas pela sonda New Horizons, da NASA, em 2019. As fotografias mostraram de perto um desses objetos de formato duplo, levando cientistas a reavaliar a população do Cinturão de Kuiper.
Ao revisar os dados, pesquisadores concluíram que aproximadamente um em cada dez planetesimais pertence à categoria de binários de contato. Para Seth Jacobson, professor envolvido no estudo, essa proporção é alta demais para ser explicada por processos raros.
Se o fenômeno fosse resultado de colisões incomuns ou eventos exóticos, a ocorrência deveria ser muito menor. O colapso gravitacional, por outro lado, surge como um mecanismo natural e relativamente comum, compatível com o que se observa.
Esses objetos permanecem, em grande parte, intocados desde a formação do Sistema Solar. A região onde orbitam é pouco povoada e relativamente protegida de impactos frequentes, funcionando como uma espécie de cápsula do tempo cósmica.
Como esses corpos se formaram no início do Sistema Solar
Para entender o processo, é preciso voltar bilhões de anos. Nos primórdios, o Sistema Solar era um disco de poeira e gás girando ao redor do jovem Sol. Com o tempo, partículas do tamanho de seixos começaram a se aglutinar pela gravidade, formando os primeiros blocos sólidos — os planetesimais.
Em certas condições, quando uma nuvem em rotação colapsa, ela pode se fragmentar em dois corpos que passam a orbitar mutuamente. Esse tipo de sistema binário é bastante comum no Cinturão de Kuiper.
Na simulação de Barnes, essas órbitas vão se estreitando gradualmente até que os dois objetos entram em contato de forma suave. Em vez de uma colisão violenta, ocorre uma fusão delicada, preservando as formas arredondadas de ambos — exatamente o que se observa nos chamados “bonecos de neve” espaciais.
Por que esses pares permanecem intactos por bilhões de anos
Uma das grandes questões sempre foi a estabilidade desses sistemas. Como duas estruturas relativamente frágeis poderiam permanecer unidas por tanto tempo?
A resposta parece estar no próprio ambiente do Cinturão de Kuiper. Segundo Barnes, a probabilidade de colisões significativas naquela região é bastante baixa. Sem impactos fortes, não há força suficiente para separar os dois corpos.
De fato, muitos desses objetos apresentam poucas ou nenhuma cratera visível, indicando um histórico de impactos muito limitado ao longo de bilhões de anos.
O novo modelo é considerado o primeiro a incorporar a física necessária para reproduzir binários de contato de maneira consistente. Para os pesquisadores, isso abre caminho para estudar sistemas ainda mais complexos, incluindo aqueles formados por três ou mais componentes.
Com futuras missões explorando regiões cada vez mais distantes do Sistema Solar, a expectativa é que mais objetos com esse formato curioso sejam identificados. Se isso acontecer, a teoria do colapso gravitacional pode se consolidar como peça-chave para entender como nasceram os primeiros blocos que, muito tempo depois, dariam origem aos planetas.
[Fonte: Click Petróleo e gás]