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Ciência

Estariam se formando anéis em um pequeno mundo no Sistema Solar, diante dos nossos olhos

Estariam se formando anéis em um pequeno mundo no Sistema Solar, diante dos nossos olhos
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um espetáculo cósmico em formação

O material que envolve Quíron — um pequeno mundo de gelo localizado nos confins do Sistema Solar — pode estar se organizando em um sistema de anéis completo. A descoberta foi feita por uma equipe de cientistas brasileiros e publicada na revista The Astrophysical Journal Letters. Se confirmada, esta seria a primeira vez que astrônomos observam a formação de anéis em tempo real.

As observações indicam que o que antes era uma nuvem difusa de pedras e poeira está agora se transformando em estruturas anulares definidas ao redor do objeto. O estudo sugere que o processo pode ser o mesmo que originou os anéis em torno de gigantes como Saturno — mas em escala muito menor.

O clube dos mundos com anéis

Embora Saturno possua o sistema de anéis mais famoso e complexo do Sistema Solar, Júpiter, Urano e Netuno também têm os seus. Entre os corpos menores, apenas o centauro Cariclo e os planetas anões Haumea e Quaoar apresentam anéis confirmados.

Esses anéis são formados por fragmentos rochosos, poeira e gelo mantidos pela gravidade do planeta ou corpo central. Agora, Quíron, descoberto em 1977, pode se juntar a esse seleto grupo.

Na época, ele foi o primeiro objeto identificado entre Saturno e Urano que não era planeta nem lua, o que levou à criação de uma nova categoria de corpos celestes: os centauros, que têm características híbridas entre asteroides e cometas.

A primeira pista: a luz de uma estrela distante

Astrônomos observaram Quíron enquanto ele passava em frente a uma estrela distante — um fenômeno conhecido como ocultação estelar. Curiosamente, a luz da estrela enfraqueceu várias vezes, e não apenas uma, como seria esperado se o corpo fosse sólido e único.

Esse padrão de brilho levou os pesquisadores a suspeitar que Quíron poderia ter anéis, uma cauda de cometa ou uma nuvem de poeira e rochas ao seu redor.

Em setembro de 2023, usando o Observatório Pico dos Dias, em Minas Gerais, o grupo de astrônomos liderado por Chrystian Luciano Pereira, pesquisador de pós-doutorado do Observatório Nacional (ON/MCTI), realizou novas observações durante outra ocultação. Eles compararam esses dados com registros de 2011, 2018 e 2022.

Três anéis confirmados — e talvez um quarto

A análise revelou três anéis bem definidos ao redor de Quíron, localizados a 273, 325 e 438 quilômetros de distância do corpo principal. Um possível quarto anel, mais tênue, parece estar a cerca de 1.400 quilômetros de distância.

Comparando os dados mais recentes com os anteriores, os cientistas perceberam mudanças significativas no sistema — o que sugere que os anéis estão evoluindo diante dos nossos olhos. Os três principais já haviam sido detectados em estudos anteriores, mas o quarto é relativamente novo e precisa de mais observações para ser confirmado.

Curiosamente, esse quarto anel está além do limite de Roche — a distância a partir da qual um corpo celeste tenderia a se desintegrar e formar anéis. Fora desse limite, o material tende a se aglutinar e formar luas, o que pode indicar que Quíron está prestes a gerar um pequeno satélite natural.

Uma chance rara de ver o nascimento de um sistema

Os pesquisadores planejam continuar monitorando Quíron em futuras passagens diante de estrelas distantes, para entender melhor a composição e o comportamento do material que o circunda.

Se o pequeno centauro realmente estiver formando um sistema de anéis em tempo real, a descoberta oferecerá um vislumbre inédito da evolução dos corpos celestes, ajudando a explicar como surgiram os poderosos anéis de Saturno e de outros planetas gigantes.

Em outras palavras, podemos estar testemunhando a criação de um novo sistema planetário em miniatura — bem diante dos nossos olhos.

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