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Ciência

Estas aves brasileiras escondem uma potência sonora que surpreendeu até os cientistas

Um amplo estudo mediu o canto de dezenas de espécies em condições naturais e encontrou no Brasil dois casos extremos que ajudam a explicar como as aves produzem sons tão intensos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quem caminha por uma floresta ou campo brasileiro pode imaginar que os sons mais impressionantes vêm de grandes animais. Mas algumas aves conseguem transformar poucos segundos de vocalização em uma demonstração extraordinária de potência. Agora, medições realizadas ao longo de anos revelam até onde esse fenômeno pode chegar e, principalmente, oferecem novas pistas sobre as características físicas que permitem a determinadas espécies produzir sons tão intensos.

Uma investigação que começou com outra pergunta

Estas aves brasileiras escondem uma potência sonora que surpreendeu até os cientistas
© Pexels

O objetivo inicial dos pesquisadores João C. T. Menezes e Jeffrey Podos, da Universidade de Massachusetts Amherst, não era simplesmente encontrar a ave mais barulhenta do planeta. A questão científica era mais ampla: por que algumas espécies conseguem vocalizar muito mais alto do que outras?

O trabalho, publicado em setembro de 2026 na revista científica Evolution, reuniu medições de 123 espécies. Os registros foram feitos entre dezembro de 2018 e janeiro de 2025 nos Estados Unidos e em diferentes regiões brasileiras, incluindo São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Roraima e Amazonas.

Medir isso na natureza é mais complicado do que parece. A intensidade registrada depende da distância entre o animal e o equipamento, além da posição da ave e das condições do ambiente. Para resolver parte do problema, os cientistas combinaram medidores portáteis de nível sonoro com telêmetros a laser, equipamentos capazes de determinar com precisão a distância até o animal.

O resultado foi uma base de dados incomum: 113 das 123 espécies analisadas nunca haviam tido sua amplitude vocal catalogada dessa maneira.

Dois brasileiros chegaram ao extremo da escala

Estas aves brasileiras escondem uma potência sonora que surpreendeu até os cientistas
© Pexels

Foi então que apareceram os protagonistas inesperados. A araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis) e a seriema (Cariama cristata) ultrapassaram 120 decibéis nos picos registrados, colocando as duas espécies entre as principais candidatas ao título de aves mais barulhentas já medidas.

A diferença dentro da amostra foi enorme. O estudo encontrou uma variação de aproximadamente 58 decibéis entre as vocalizações máximas das espécies. Na extremidade mais silenciosa estava um beija-flor, com cerca de 64 decibéis a um metro. No outro lado estavam as aves brasileiras, chegando à faixa dos 120 decibéis.

É importante não interpretar esses números como se uma ave estivesse continuamente submetendo quem está por perto ao mesmo ruído de uma máquina industrial. As medições se referem a vocalizações específicas e a parâmetros padronizados de pressão sonora.

Ainda assim, a intensidade é extraordinária. A araponga-de-garganta-nua, encontrada na Mata Atlântica, produz um canto curto e penetrante. A seriema, típica de ambientes mais abertos da América do Sul, utiliza uma vocalização bastante diferente e prolongada.

O corpo das aves oferece uma pista

A parte mais interessante da pesquisa talvez não seja descobrir quem consegue fazer mais barulho, mas entender como isso é possível.

A análise encontrou duas associações importantes: espécies maiores tendem a produzir vocalizações máximas mais intensas, e aves capazes de abrir mais o bico também apresentam maior amplitude sonora.

Uma hipótese é que corpos maiores disponham de estruturas musculares capazes de gerar e controlar pressões mais elevadas durante a vocalização. Uma abertura maior do bico, por sua vez, pode favorecer a transmissão do som. Mas isso não significa que os cientistas já conheçam todos os mecanismos envolvidos.

Quem quiser consultar os resultados diretamente pode acessar o estudo publicado na revista científica Evolution, que detalha as medições e as análises evolutivas realizadas pelos pesquisadores.

Algumas explicações óbvias não funcionaram

Os pesquisadores também testaram hipóteses que pareciam intuitivas. Talvez aves de ambientes densos precisassem cantar mais alto para serem ouvidas através da vegetação. Ou espécies com menor mobilidade aérea compensassem essa limitação aumentando o alcance da comunicação. Sistemas de acasalamento também poderiam favorecer vocalizações particularmente intensas.

Os dados, porém, não ofereceram apoio inequívoco para essas explicações. Mobilidade, densidade do habitat e sistema de acasalamento não apresentaram uma relação geral clara com a amplitude máxima.

Isso deixa uma questão fascinante em aberto. A ciência começa a compreender melhor como algumas aves conseguem atingir volumes tão elevados, mas ainda não sabe completamente por que a evolução levou determinadas espécies a esses extremos.

E justamente aí está a importância do levantamento. Em vez de apenas estabelecer um possível novo recorde, ele amplia drasticamente os dados disponíveis sobre a comunicação acústica das aves. Com mais espécies analisadas no futuro, será possível investigar se existem padrões que hoje permanecem escondidos.

No caso do Brasil, a descoberta também evidencia algo que muitas vezes passa despercebido: além de uma biodiversidade extraordinária para observar, o país guarda uma paisagem sonora igualmente extrema.

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