Quando pensamos em um planeta, é quase inevitável usar a Terra como referência: dias e noites, temperaturas relativamente estáveis e uma estrela iluminando o céu. O problema é que o universo não parece interessado em seguir esse modelo. Nas últimas décadas, astrônomos descobriram mundos submetidos a condições tão extremas que poderiam facilmente fazer parte de uma história de ficção científica — com uma diferença importante: eles realmente existem.
Há planetas escuros, deformados e com atmosferas quase inacreditáveis
A cerca de 750 anos-luz da Terra está TrES-2 b, um gigante gasoso que absorve praticamente toda a luz que recebe. Menos de 1% da radiação de sua estrela é refletida, característica que o transformou em um dos planetas mais escuros já identificados.
Isso não significa, porém, que seja completamente invisível. Devido às temperaturas elevadas, provavelmente apresenta um discreto brilho avermelhado. Seu “ano” também passa rapidamente: uma órbita completa leva apenas 2,47 dias terrestres.
Outro mundo aparentemente familiar esconde condições muito diferentes. HD 189733 b, localizado a cerca de 64 anos-luz, possui uma intensa tonalidade azul. Não existem oceanos semelhantes aos terrestres por lá.
Sua atmosfera extremamente quente contém partículas de silicatos, enquanto ventos podem alcançar milhares de quilômetros por hora. Nessas condições, os silicatos poderiam se condensar e atravessar a atmosfera lateralmente, criando o fenômeno popularmente descrito como uma espécie de “chuva de vidro”.
Já WASP-12 b está tão próximo de sua estrela que completa uma órbita em aproximadamente 1,1 dia. A gravidade exercida sobre o planeta é tão intensa que deformou sua estrutura, deixando-o com uma aparência alongada.
E a situação continua piorando: parte de sua atmosfera está sendo arrancada. Com o tempo, o planeta poderá acabar destruído pela própria estrela que orbita.
Alguns desafiam até o que imaginávamos sobre tamanho, densidade e órbitas
TOI-3757 b tem dimensões comparáveis às de Júpiter, mas sua densidade é de apenas 0,27 grama por centímetro cúbico — aproximadamente quatro vezes menor que a da água.
A característica lhe rendeu um apelido curioso: “planeta marshmallow”. Sua existência é ainda mais intrigante porque ele orbita uma anã vermelha, tipo de estrela em torno do qual gigantes gasosos são considerados relativamente incomuns.
Mas nem todo planeta precisa necessariamente acompanhar uma estrela.
A cerca de 80 anos-luz está PSO J318.5−22, um objeto de massa planetária que percorre o espaço livremente. Com aproximadamente seis vezes a massa de Júpiter e apenas 12 milhões de anos, ele ainda conserva parte do calor de sua formação, permitindo sua observação em comprimentos de onda infravermelhos.
Se a ausência de uma estrela parece extrema, KELT-9 b apresenta o problema oposto. Sua face diurna pode atingir cerca de 4.300 °C — temperatura superior à superfície de algumas estrelas.
O calor é suficiente para destruir moléculas presentes em sua atmosfera. E o planeta completa uma volta ao redor de sua estrela em apenas 36 horas.
Em outros mundos, até as rochas e os metais entram no ciclo do clima
Localizada a aproximadamente 41 anos-luz, a superterra 55 Cancri e está a apenas 2,3 milhões de quilômetros de sua estrela. Um ano nesse planeta termina em menos de 18 horas.
As temperaturas podem ultrapassar 2.000 °C, criando condições capazes de manter grandes quantidades de rocha em estado fundido. Em vez de oceanos de água, sua superfície pode apresentar regiões dominadas por magma.
Mas um dos fenômenos mais surpreendentes aparece em WASP-76 b.
No hemisfério permanentemente iluminado, as temperaturas passam de 2.400 °C, calor suficiente para vaporizar ferro. Fortes correntes atmosféricas transportam esse material para o lado noturno, mais frio, onde ele pode se condensar.
O resultado é um ciclo meteorológico difícil de imaginar na Terra: gotas de ferro podem cair pela atmosfera como chuva.
Nenhum desses mundos viola as leis da física. E é justamente isso que os torna extraordinários.
Eles mostram que aquilo que consideramos “normal” em um planeta talvez seja apenas consequência de vivermos em um exemplo muito particular. Quando observamos o restante do universo, as possibilidades parecem ser muito mais estranhas — e extremas — do que nossa experiência na Terra poderia sugerir.