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Favela de SP sofre impactos ambientais com acúmulo de metano no solo

Uma escola fechada há dois anos em Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, tornou-se um símbolo das consequências ambientais do metano, um dos principais gases do efeito estufa. O acúmulo do gás alterou a rotina de centenas de famílias e expôs a desigualdade no enfrentamento dos impactos ambientais.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O fechamento inesperado da escola

Na zona sul de São Paulo, a escola municipal Péricles Eugênio da Silva Ramos está fechada desde 2023. O motivo: altos níveis de metano no solo, detectados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A princípio, a interdição seria temporária, durando 180 dias, mas o prazo foi sendo estendido sem previsão de reabertura.

Os cerca de 600 alunos foram transferidos para outra unidade escolar, o Centro Educacional Unificado (CEU) Meninos, localizado a dois quilômetros de distância. A mudança foi improvisada, com salas apertadas e sem ventilação adequada. Para famílias como a de Cinthia Cristina Vieira, mãe de dois estudantes, a adaptação foi difícil. Seu filho, diagnosticado com autismo, enfrentou crises nervosas devido à transição.

Outros pais, como Ana Paula Almeida, optaram por transferir seus filhos para escolas mais distantes em busca de melhores condições. A falta de respostas sobre a reabertura do colégio gerou indignação na comunidade, que exige mais transparência e soluções para o problema.

O impacto ambiental e histórico da contaminação

O caso evidencia como áreas vulneráveis sofrem desproporcionalmente com problemas ambientais. Heliópolis, com mais de 55 mil habitantes segundo o Censo de 2022, foi construída sobre terrenos que há décadas acumulam resíduos industriais. No século XIX, a região abrigava fábricas de sabão e óleo, além de bases de distribuição de combustíveis. A deposição inadequada de produtos químicos ao longo dos anos contribuiu para a contaminação do solo e a liberação de metano.

O metano (CH4) é um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento 80 vezes maior que o dióxido de carbono (CO2) nos primeiros 20 anos após sua liberação. Ele é produzido pela decomposição de matéria orgânica e pode se acumular em áreas úmidas e lixões, tornando-se um risco para a saúde pública.

Medidas de controle e incertezas sobre o futuro

A Cetesb classificou Heliópolis como uma Área Contaminada Crítica (ACC), um termo técnico que indica alto risco ambiental. Para reduzir os impactos do gás, especialistas recomendam a instalação de sistemas de dissipação passiva de metano, algo ainda não implementado na escola fechada. A Companhia de Habitação Popular (Cohab) de São Paulo monitora a situação, mas não há previsão para soluções definitivas.

Enquanto isso, os moradores percebem mudanças climáticas no dia a dia, como verões cada vez mais quentes. A situação levantou debates sobre racismo ambiental, termo que descreve como comunidades periféricas são desproporcionalmente impactadas por problemas ambientais sem receber medidas adequadas de mitigação.

O Brasil e o compromisso global com o metano

O Brasil é o quinto maior emissor mundial de metano, sendo a agropecuária responsável por 70% dessas emissões. Apesar de ser signatário do Compromisso Global do Metano, que busca reduzir em 30% as emissões do gás até 2030, o país registrou um aumento de 5% entre 2020 e 2023.

Segundo o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), essa trajetória de crescimento contraria os esforços internacionais para limitar o aquecimento global a 1,5°C, conforme estabelecido no Acordo de Paris.

O fechamento da escola Péricles Eugênio da Silva Ramos é um reflexo da crise ambiental que atinge comunidades periféricas de maneira mais severa. Enquanto a situação permanece indefinida, famílias enfrentam desafios diários para garantir a educação de seus filhos. Sem um plano concreto para resolver a contaminação do solo, Heliópolis segue como um exemplo das desigualdades no enfrentamento das mudanças climáticas e dos riscos ambientais urbanos.

[Fonte: DW]

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