Embora paleontólogos discutam há décadas sobre a origem e a dispersão dos dinossauros, a teoria amplamente aceita era que eles surgiram no sul do antigo continente da Pangeia, há mais de 200 milhões de anos, e só migraram para o norte milhões de anos depois. Um novo estudo, porém, está transformando essa narrativa.
Paleontólogos da Universidade de Wisconsin–Madison (UW–Madison) anunciaram a descoberta de um novo dinossauro que desafia a teoria convencional sobre a origem e a dispersão dos dinossauros. A localização e a idade dos fósseis recém-descritos sugerem que dinossauros já vagavam pelas regiões ao norte da Pangeia milhões de anos antes do que se imaginava. As descobertas foram publicadas em 8 de janeiro no Zoological Journal of the Linnean Society.
“Estamos preenchendo algumas lacunas dessa história e mostrando que as ideias que mantivemos por tanto tempo — baseadas nas evidências fragmentadas que tínhamos — não estavam totalmente corretas”, afirmou Dave Lovelace, do Museu de Geologia da Universidade de Wisconsin, que co-liderou o estudo. “Agora temos essa evidência que prova que os dinossauros estavam no hemisfério norte muito antes do que pensávamos.”
A descoberta do fóssil
Os paleontólogos descobriram os fósseis desafiadores em Wyoming, nos Estados Unidos, em 2013. Há mais de 200 milhões de anos, devido ao movimento das placas tectônicas, essa região estava localizada perto do equador, em Laurásia — a metade norte da Pangeia (a metade sul era chamada de Gondwana).
Apesar de fragmentados, os fósseis foram identificados como pertencentes a uma nova espécie de dinossauro, que recebeu o nome Ahvaytum bahndooiveche, provavelmente um parente primitivo dos saurópodes. No entanto, Ahvaytum era bem diferente dos icônicos herbívoros de pescoço longo.
“Ele tinha basicamente o tamanho de uma galinha, mas com uma cauda muito longa”, disse Lovelace. “Pensamos nos dinossauros como gigantes colossais, mas eles não começaram assim.” O espécime adulto media cerca de 30,5 centímetros de altura e 91,4 centímetros de comprimento.
A idade que muda a história
O aspecto mais surpreendente da descoberta foi a idade do fóssil. Usando datação radioisotópica — uma técnica que mede o decaimento radioativo para determinar a idade das rochas — Lovelace e sua equipe concluíram que as camadas rochosas contendo os fósseis do Ahvaytum tinham aproximadamente 230 milhões de anos. Isso faz do Ahvaytum o dinossauro mais antigo conhecido da Laurásia, contemporâneo aos primeiros dinossauros conhecidos da Gondwana.
Os dinossauros surgiram durante o período Triássico, há cerca de 230 milhões de anos. Esse período, que durou entre 252 e 201 milhões de anos atrás, marcou o aparecimento dos primeiros dinossauros, que depois se tornaram dominantes no período Jurássico.
“Com esses fósseis, temos o dinossauro equatorial mais antigo do mundo — e também o mais antigo da América do Norte”, destacou Lovelace. O fato de que o dinossauro mais antigo da Laurásia é tão antigo quanto os primeiros dinossauros da Gondwana desafia diretamente a teoria de que os dinossauros surgiram no sul da Pangeia e só migraram para o norte milhões de anos depois.
A descoberta foi feita em terras ancestrais da tribo Eastern Shoshone. Por isso, os pesquisadores trabalharam em parceria com membros da tribo durante toda a pesquisa e incluíram anciãos e estudantes de ensino médio da tribo na escolha do nome do novo dinossauro. Ahvaytum bahndooiveche significa aproximadamente “dinossauro de tempos antigos” na língua dos Eastern Shoshone.
Outras descobertas no local
Além do Ahvaytum, a região revelou ainda mais segredos. Os pesquisadores identificaram uma pegada de dinossauro primitivo em camadas rochosas ainda mais antigas, sugerindo que dinossauros ou seus ancestrais já habitavam Laurásia antes mesmo do Ahvaytum. Também foi descoberto o fóssil de um anfíbio, que recebeu um nome em homenagem à língua dos Eastern Shoshone.
A descoberta do pequeno Ahvaytum, do tamanho de uma galinha, desafia teorias antigas sobre como os dinossauros se espalharam pela Pangeia. Mais do que isso, oferece um retrato mais claro de quem eram — e onde viviam — essas criaturas que habitaram a Terra milhões de anos antes de nós.