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Ciência

Há hidrogênio surgindo naturalmente debaixo da Terra — descobrir quanto podemos extrair virou uma nova corrida energética

Um combustível que normalmente exige processos industriais também pode surgir naturalmente no subsolo. Descobertas na África, Europa e Brasil iniciaram uma corrida para saber quanto realmente existe.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O hidrogênio costuma aparecer nas discussões sobre o futuro da energia por uma razão atraente: quando usado em uma célula a combustível, pode gerar energia sem emitir dióxido de carbono no ponto de uso. O problema sempre esteve em obtê-lo. Produzi-lo pode exigir combustíveis fósseis ou grandes quantidades de eletricidade. Agora, empresas e pesquisadores procuram uma alternativa que muda essa lógica: em alguns lugares, o hidrogênio já está pronto sob nossos pés.

O hidrogênio branco não precisa ser fabricado: ele se forma dentro da Terra

O hidrogênio é o elemento mais abundante do Universo e possui, por massa, aproximadamente três vezes a energia da gasolina.

Na Terra, porém, existe uma dificuldade: ele raramente aparece livre em grandes quantidades. Normalmente está combinado com outros elementos, como acontece na água, e separá-lo exige energia.

Daí surgiram as famosas cores do hidrogênio.

O cinza é produzido principalmente a partir de gás natural, liberando CO₂. O azul utiliza processos semelhantes, mas tenta capturar parte dessas emissões. Já o verde usa eletricidade renovável para realizar a eletrólise da água, reduzindo fortemente as emissões associadas à produção, embora ainda possa ter custos elevados.

O hidrogênio branco, também chamado de natural ou geológico, é diferente.

Ele já existe no subsolo.

Um dos principais mecanismos conhecidos para sua formação é a serpentinização. A água penetra na crosta terrestre e reage com determinadas rochas ricas em ferro. Durante essas reações, o ferro é oxidado e moléculas de água podem liberar hidrogênio.

Outro processo possível é a radiólise, na qual a radioatividade natural de certas rochas quebra moléculas de água.

Existe ainda uma característica especialmente intrigante: essas reações continuam acontecendo.

Em teoria, isso significa que algumas acumulações de hidrogênio poderiam se regenerar ao longo do tempo, embora ainda existam grandes dúvidas sobre a velocidade dessa reposição e sua relevância para uma exploração comercial.

Um poço perfurado por acaso mostrou que a ideia poderia funcionar

Um dos casos mais conhecidos fica em Bourakébougou, no Mali.

Em 1987, uma perfuração feita originalmente em busca de água encontrou um gás que posteriormente foi identificado como hidrogênio em alta concentração.

Anos depois, o poço passou a ser utilizado para gerar eletricidade localmente. O episódio se tornou uma referência porque demonstrou que o hidrogênio geológico não era apenas uma curiosidade científica: ele poderia ser aproveitado energeticamente.

Outras descobertas aumentaram o interesse.

Na região da Lorena, no nordeste da França, pesquisadores detectaram concentrações de hidrogênio em 2023 que levaram a estimativas de um possível depósito de até 46 milhões de toneladas, embora seu tamanho e viabilidade ainda precisem ser confirmados.

Na Albânia, medições realizadas em uma mina de cromo identificaram uma das maiores emissões naturais conhecidas desse gás.

E o Brasil também aparece nesse mapa.

Na bacia do rio São Francisco, pesquisadores estudam estruturas circulares visíveis na vegetação que foram associadas a possíveis vazamentos naturais de hidrogênio provenientes do subsolo.

A grande pergunta agora é quanto desse recurso realmente existe — e quanto pode ser extraído.

Uma estimativa colocou trilhões de toneladas no subsolo

Em 2024, um modelo do Serviço Geológico dos Estados Unidos estimou que o planeta poderia armazenar aproximadamente 5,6 trilhões de toneladas de hidrogênio geológico.

Grande parte estaria em locais inacessíveis ou economicamente inviáveis.

Ainda assim, os pesquisadores calcularam que recuperar apenas uma pequena parcela desse volume poderia ser suficiente para atender à demanda global projetada durante aproximadamente dois séculos.

Os custos potenciais também despertam interesse. Algumas estimativas do setor colocam o hidrogênio natural abaixo de 1 euro por quilo, enquanto o hidrogênio verde pode custar várias vezes mais.

Por enquanto, porém, essa vantagem permanece essencialmente projetada. Ainda não existe uma indústria global de hidrogênio branco em escala suficiente para comprovar esses valores.

A corrida já chegou à Europa. No País Basco, autoridades analisam pedidos de exploração, enquanto a empresa Mantle8 recebeu autorização em 2026 para estudar a região da serra de Aralar usando inicialmente técnicas não invasivas. A busca também inclui hélio, outro recurso estratégico.

Ainda restam perguntas fundamentais: quais depósitos são comercialmente aproveitáveis, quanto conseguem se regenerar e quais seriam os impactos ambientais da extração.

Mas a possibilidade já mudou a discussão.

Depois de décadas tentando descobrir maneiras mais limpas e baratas de fabricar hidrogênio, pesquisadores começaram a considerar uma alternativa muito diferente: talvez parte do combustível do futuro não precise ser produzida.

Talvez seja preciso encontrá-la.

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