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Tecnologia

Lembra quando a nanotecnologia era “a próxima grande revolução”?

Enquanto o mercado tenta entender o futuro da IA, é bom lembrar que já passamos por esse ciclo de euforia e frustração com a tecnologia antes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Diga se isso soa familiar:

Nos anos 2000, após o colapso da bolha das dotcoms, uma nova tecnologia surgiu prometendo transformar a humanidade e enriquecer seus inventores. Capitalistas de risco despejaram bilhões na área.

“Este campo trará o maior e mais importante avanço do século atual. Ele causará mudanças reais na economia,” disse Josh Wolff, da empresa de capital de risco Lux Capital.

Empresas e investidores garantiam que essa nova tecnologia mudaria a forma como vivíamos e trabalhávamos — e elevaria a humanidade. Múltiplos presidentes dos EUA entraram na onda, criando agências e iniciativas para apoiar o setor. Conferências surgiram ao redor do mundo para fomentar o avanço tecnológico e discutir seus dilemas éticos.

Era assim que falavam da nanotecnologia.

“Na DFJ, acreditamos que a nanotecnologia é a próxima grande onda tecnológica, a nova fase da Lei de Moore, e o ponto de convergência da inovação científica que revolucionará a maioria das indústrias e afetará profundamente a sociedade. Historiadores verão essa era com a mesma importância da Revolução Industrial,” disse Steve Jurvetson, então diretor da Draper Fisher Jurvetson, em meados dos anos 2000.

Parece muito com o que dizem hoje sobre inteligência artificial (IA), não é?

Pensei em nanotecnologia quando o mercado de ações despencou após a revelação de que uma empresa chinesa havia criado um concorrente do ChatGPT por uma fração do custo. O impacto foi brutal: a NVIDIA — que fabrica os chips essenciais para treinar sistemas de IA — perdeu 600 bilhões de dólares em valor de mercado, a maior queda da história do mercado financeiro.

Nos anos 1990, a internet era a grande aposta. Wall Street despejava dinheiro em qualquer empresa com “.com” no nome. O país inteiro foi tomado pela febre do Pets.com, cujo mascote chegou a participar da Parada de Ação de Graças da Macy’s. Mas em 2000, a bolha estourou: os investidores perceberam que muitos desses sites não geravam lucro algum. O Pets.com virou símbolo do fracasso, e milhões foram perdidos.

Com o fim da bolha dotcom, o dinheiro precisou de um novo destino. E esse destino foi a nanotecnologia. Cientistas já pesquisavam materiais em nanoescala há décadas, mas ninguém prestava muita atenção. Após o crash das dotcoms, “nano” virou a nova palavra mágica, e bilhões fluíram para o setor.

Assim como “.com” e, hoje, “IA”, “nano” virou um termo de marketing. Dinheiro de capital de risco inundou laboratórios. Promessas foram feitas: a nanotecnologia inauguraria uma nova era de abundância. Outros alertaram para o perigo: robôs auto-replicantes em nanoescala poderiam consumir toda a biomassa da Terra, transformando o planeta em uma massa cinzenta (grey goo). O escritor Michael Crichton, autor de Jurassic Park, chegou a escrever um livro sobre esse cenário apocalíptico.

Presidentes embarcaram na onda:

  • Em 2000, Bill Clinton discursou sobre nanotecnologia no CalTech e lançou a National Nanotechnology Initiative, um ambicioso projeto de 20 anos para impulsionar a pesquisa.
  • Em 2003, George W. Bush assinou a Nanotechnology Research and Development Act, injetando ainda mais fundos federais na área.

Mas… a “revolução” não veio. O entusiasmo do mercado morreu. O dinheiro de capital de risco secou. No entanto, a nanotecnologia não desapareceu. Pelo contrário: hoje, é essencial em semicondutores, na produção de alimentos e na medicina. O que mudou foi o nível de histeria e as promessas exageradas.

Hoje, a IA está no mesmo lugar que a nanotecnologia esteve nos anos 2000. Com uma diferença: os números são muito maiores.

  • Nos anos 2000, havia cerca de 1.200 startups de nanotecnologia.
  • Hoje, são dezenas de milhares de startups de IA.
  • A nanotecnologia atraiu bilhões em investimentos.
  • A IA já atraiu centenas de bilhões.

A nanotecnologia trouxe avanços profundos, mas discretos. A IA provavelmente seguirá o mesmo caminho: em breve, usaremos IA em tudo sem nem perceber. Aliás, já usamos: o corretor ortográfico, que ninguém associa à IA, nasceu em 1971 no Stanford Artificial Intelligence Laboratory.

Há algumas semanas, uma empresa chinesa derrubou o ChatGPT do topo da App Store da Apple. Isso não deveria causar um colapso nas ações da NVIDIA, que fabrica chips usados por ambos. Mas causou. É um sinal de que, como antes com a nanotecnologia, o mercado está prometendo a lua com a IA.

Mas, assim como a nanotecnologia, a IA está aqui para ficar. E, como sempre, precisamos ter cuidado com os falsos profetas — eles são fáceis de identificar. Afinal, usam sempre o mesmo discurso.

Compare o que Steve Jurvetson disse sobre nanotecnologia em 2005 com as palavras de Sam Altman, CEO da OpenAI, sobre IA:

  • Jurvetson: “Nanotecnologia é a nova fase da Lei de Moore e uma revolução comparável à Revolução Industrial.”
  • Altman: “IA é a nova fase da Lei de Moore e uma revolução comparável à Revolução Industrial.”

Altman até escreveu um artigo chamado “Moore’s Law for Everything”, decorado com uma imagem de cédulas de dólar. Assim como Jurvetson, ele promete uma nova era para a humanidade. Assim como Jurvetson, ele está vendendo algo.

E, como sempre, não é exatamente um sonho do futuro. É apenas um aplicativo. Um aplicativo pelo qual ele quer que você pague.

E o mais irônico? A China está oferecendo de graça.

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