Antes, o Google era visto como um exemplo clássico de hierarquia corporativa no Vale do Silício. Agora, sem alarde, desmonta parte dessa rede para operar com menos gestores e equipes mais enxutas. O discurso oficial fala em eficiência, mas a transformação pode alterar a própria cultura de trabalho que sustentou o crescimento da gigante por duas décadas.
Uma queda de 35% no número de gestores
Brian Welle, vice-presidente de análise de pessoal, confirmou em reunião interna que o Google tem hoje 35% menos gerentes do que há um ano. A medida não é cosmética: a empresa quer equilibrar o número de líderes com o de colaboradores sob sua responsabilidade.
A justificativa é clara: reduzir burocracia, cortar etapas e acelerar a tomada de decisões em um momento em que a velocidade é vital para acompanhar a revolução da inteligência artificial. Para Sundar Pichai, CEO da Alphabet, ampliar equipes não é sinônimo de resolver problemas; o segredo está em operar de forma mais simples e direta.
Equipes menores e mais ágeis
Os cortes afetam, sobretudo, gestores responsáveis por grupos de menos de três pessoas. Isso não significa sempre demissão: em muitos casos, os profissionais foram realocados como colaboradores individuais, aproveitando sua experiência sem mantê-los em cargos de supervisão.
A lógica é replicar a agilidade de startups dentro de uma corporação global. Menos camadas hierárquicas significam mais flexibilidade e maior capacidade de adaptação — pelo menos em teoria.
Um processo que começou em 2023
Essa transformação não nasceu de repente. Após as demissões que cortaram 6% da força de trabalho em 2023, a empresa já havia sinalizado que seguiria em direção a uma reorganização mais profunda. Em 2024, programas de saída voluntária reforçaram esse movimento.
Anat Ashkenazi, diretora financeira, já havia antecipado que o Google precisava “simplificar ainda mais” sua estrutura. A motivação é evidente: em plena era de investimentos massivos em inteligência artificial e hardware, a palavra de ordem dentro da empresa é frugalidade.

O programa de saídas voluntárias
Segundo o áudio vazado, dez departamentos — incluindo pesquisa, marketing, hardware e recursos humanos — ofereceram pacotes de saída voluntária. Entre 3% e 5% dos funcionários dessas áreas aceitaram as propostas.
Fiona Cicconi, diretora de pessoal, destacou que o plano teve “bastante sucesso”, sinalizando que a mensagem interna é inequívoca: menos hierarquia, mais foco em resultados.
Eficiência ou risco para o futuro?
A grande questão é até que ponto esse modelo pode sustentar uma empresa com o tamanho e a influência do Google. De um lado, menos burocracia pode significar mais agilidade para competir com rivais como OpenAI e Microsoft. De outro, há quem alerte que a ausência de gestores intermediários pode dificultar a coordenação em projetos de larga escala.
O que está em jogo não é apenas a eficiência interna, mas também a forma como o Google encara o futuro da inovação global. Uma aposta ousada: transformar sua cultura corporativa enquanto disputa o posto de liderança na corrida da inteligência artificial.