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Ciência

Não é só força de vontade: estudo identifica mutação genética ligada a fumar menos e aponta novos caminhos para tratar a dependência de nicotina

Uma análise com quase 38 mil fumantes revelou que variações em um gene ligado aos receptores de nicotina podem reduzir significativamente o número de cigarros consumidos por dia. A descoberta, publicada na revista Nature, abre espaço para terapias mais personalizadas contra o tabagismo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O tabagismo continua sendo um dos principais problemas de saúde pública no mundo. Apesar da queda gradual no número de fumantes em vários países, milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para abandonar o cigarro. Agora, um estudo publicado na revista Nature sugere que parte dessa dependência pode estar inscrita no próprio DNA.

A pesquisa analisou o genoma de 37.987 fumantes da Cidade do México e identificou uma variação genética associada a um menor consumo diário de cigarros. O trabalho foi liderado por Veera Rajagopa, do Centro de Genética da empresa Regeneron, e envolveu uma colaboração internacional.

Como a nicotina age no cérebro

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© Jplenio – X

Para entender a descoberta, é preciso olhar para o funcionamento do sistema nervoso. A nicotina atua principalmente sobre os chamados receptores nicotínicos de acetilcolina, proteínas presentes no sistema nervoso central e periférico. Esses receptores participam de funções como atenção, memória, aprendizado e, sobretudo, recompensa.

Quando uma pessoa fuma, a nicotina se liga a esses receptores e desencadeia a liberação de dopamina — neurotransmissor associado à sensação de prazer. O cérebro aprende rapidamente que aquele estímulo gera recompensa e passa a “pedir” novas doses, reforçando o ciclo de dependência.

A mutação que pode reduzir o consumo

O estudo identificou que certas mutações na subunidade 3 do receptor nicotínico de acetilcolina, codificada pelo gene CHRNB3, estão associadas a um consumo significativamente menor de cigarros por dia.

Segundo os dados, indivíduos portadores dessa variação genética podem fumar entre 21% e 78% menos do que aqueles com a versão mais comum do gene. A explicação provável é que a alteração reduz a eficiência da ligação da nicotina ao receptor, diminuindo a liberação de dopamina e, consequentemente, a sensação de recompensa.

Pesquisas anteriores já haviam relacionado receptores nicotínicos ao tabagismo, mas ainda não estava claro o papel específico de cada subunidade. “Os receptores de acetilcolina são proteínas que se ligam à nicotina no cérebro e desencadeiam mudanças no comportamento e no grau de dependência”, explicou Rajagopa no estudo.

Por que isso é importante

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© NoblePrime – Pixabay

A principal implicação do achado está na possibilidade de desenvolver terapias mais direcionadas. Se determinadas subunidades dos receptores influenciam diretamente a intensidade da dependência, medicamentos que inibam seletivamente essas estruturas poderiam ajudar a reduzir o desejo por nicotina.

Ainda se trata de uma linha de pesquisa inicial. A segurança e a eficácia de intervenções focadas nessas subunidades precisam ser testadas em ensaios clínicos. No entanto, o estudo fornece uma base molecular mais clara para entender por que algumas pessoas têm mais dificuldade em largar o cigarro do que outras.

Outro ponto relevante é a diversidade genética. Embora o estudo tenha sido realizado com uma população mexicana, os pesquisadores também encontraram mutações semelhantes em indivíduos com ascendência asiática e europeia. Isso sugere que o efeito pode ter alcance mais amplo, embora variações raras frequentemente sejam específicas de determinados grupos populacionais.

Tratamentos atuais e o futuro da medicina personalizada

Hoje, os tratamentos contra o tabagismo incluem reposição de nicotina (adesivos, gomas e sprays), além de medicamentos como vareniclina e bupropiona, que atuam no sistema nervoso para reduzir a fissura e os sintomas de abstinência.

A nova descoberta reforça a tendência da medicina personalizada: no futuro, testes genéticos poderão ajudar a identificar qual estratégia terapêutica tem maior probabilidade de sucesso para cada indivíduo.

Mais do que transferir a responsabilidade para os genes, o estudo amplia a compreensão sobre a biologia da dependência. E ao revelar que a genética pode influenciar a intensidade do vício, abre-se a possibilidade de intervenções mais eficazes — e talvez mais humanas — no combate ao tabagismo.

 

[ Fonte: National Geographic ]

 

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