Pela primeira vez, cientistas analisaram medições diretas da radiação UV na superfície de Marte — e o resultado surpreende. Diferente do que apontavam os modelos anteriores, a intensidade da radiação, embora alta, não inviabiliza completamente a presença de vida. O estudo reacende o interesse sobre como microrganismos poderiam sobreviver no planeta vermelho e quais cuidados devem ser tomados em futuras missões espaciais.
Radiação UV em Marte: o que os novos dados revelam?
A NASA acaba de confirmar: auroras em Marte! 🪐
✨ Um fenômeno que, teoricamente, não deveria acontecer no planeta vermelho por sua falta de campo magnético forte. Esta descoberta pode revolucionar nosso entendimento sobre proteção contra radiação para futuras missões humanas!… pic.twitter.com/9g7lTJBH65
— Mateo Meo (@mateo_meo) May 15, 2025
Durante décadas, o conhecimento sobre a radiação ultravioleta em Marte era baseado apenas em simulações computacionais. Agora, graças ao instrumento REMS, instalado no rover Curiosity da NASA, foi possível obter informações reais diretamente do cratera Gale, onde o veículo opera desde 2012.
Os dados, coletados ao longo de mais de cinco anos marcianos (equivalentes a cerca de dez anos terrestres), mostram que a composição da radiação UV na superfície marciana é, em média, de 79,6% UV-A, 15,3% UV-B e 5,1% UV-C. Isso se aproxima dos níveis que existiam na Terra primitiva, quando a vida ainda engatinhava.
Menos hostilidade do que se pensava
A Terra moderna conta com uma camada de ozônio que filtra quase toda a radiação UV-C e a maior parte da UV-B. Já Marte, com uma atmosfera cem vezes mais fina, não possui essa proteção eficaz, permitindo que as três faixas de UV cheguem quase integralmente ao solo.
Apesar disso, os pesquisadores do Centro de Astrobiologia da Espanha (CAB), que lideraram o estudo, explicam que a radiação, embora intensa, não é totalmente incompatível com a vida. Microrganismos terrestres, por exemplo, poderiam resistir por certo tempo, especialmente se abrigados sob o solo ou em rochas.
O papel ambíguo da poeira marciana
Um dos fatores mais relevantes observados foi a presença constante de poeira em suspensão na atmosfera marciana. Durante as tempestades de poeira, comuns em Marte, esse material pode reduzir a incidência direta da radiação, funcionando como uma barreira temporária. No entanto, também pode expor áreas antes protegidas, criando oscilações imprevisíveis nos níveis de radiação.
As variações detectadas pelo REMS foram significativas: em alguns dias marcianos, chamados de “sols”, os níveis de radiação mudaram em mais de 30%. Esse comportamento irregular não havia sido antecipado pelos modelos computacionais, evidenciando a importância de instrumentação direta no planeta.
Comparações com a Terra primitiva
Os cientistas compararam os dados de Marte com as condições da Terra há cerca de 4 bilhões de anos, quando a camada de ozônio ainda não existia. Naquele período, formas de vida conseguiram surgir mesmo sob alta radiação, protegidas por camadas de água ou por minerais.
Esse paralelo permite imaginar que ambientes semelhantes possam existir em Marte, sustentando a possibilidade de vida microbiana passada ou presente, especialmente em locais protegidos naturalmente da radiação extrema.
Implicações para missões futuras
Além de ampliar o debate sobre a habitabilidade de Marte, o estudo reforça a importância de evitar a contaminação do planeta com microrganismos terrestres. Com a possibilidade de que formas de vida possam sobreviver mesmo à radiação marciana, medidas rigorosas de proteção planetária tornam-se ainda mais cruciais.
O alerta vale especialmente para missões tripuladas, que devem garantir a segurança dos astronautas e também preservar o ambiente marciano contra interferências externas.
Um novo olhar para Marte e para a Terra
O estudo, publicado na revista PNAS e apoiado pela União Europeia e pela NASA, representa um avanço fundamental na pesquisa astrobiológica. Pela primeira vez, a avaliação da radiação em Marte é baseada em dados reais e contínuos, e não apenas em simulações.
Com isso, os cientistas ganham um novo instrumento para mapear possíveis nichos habitáveis e desenvolver estratégias mais precisas para futuras explorações. Em última análise, ao olhar para Marte, também revisitamos as origens da vida na Terra — e expandimos nossas hipóteses sobre onde ela pode surgir no universo.
Fonte: Infobae