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Ciência

Nova simulação liderada por brasileiro reacende debate sobre possível nono planeta no Sistema Solar

Estudo publicado em revista científica simula a presença do enigmático Planeta 9 e mostra que ele pode ser a peça que faltava para explicar padrões orbitais de cometas e objetos distantes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Mesmo com o avanço contínuo na descoberta de exoplanetas e sistemas distantes, o nosso próprio Sistema Solar ainda guarda mistérios intrigantes. Um deles, debatido há décadas, é a possível existência de um nono planeta — até hoje nunca visto, mas cujos efeitos gravitacionais podem estar bem diante dos nossos olhos. Agora, um novo estudo liderado por um pesquisador brasileiro dá mais força a essa hipótese e pode redefinir o que conhecemos sobre a arquitetura do Sistema Solar.

Pesquisadores testam modelo com nove planetas

O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com pesquisadores dos Estados Unidos e da França, e publicado na edição de junho de 2025 da revista científica Icarus. A proposta foi testar um modelo do Sistema Solar que inclui o misterioso Planeta 9 e avaliar sua influência gravitacional ao longo de bilhões de anos.

A equipe utilizou simulações de alta complexidade para analisar como esse planeta afetaria a formação e as órbitas de cometas, especialmente aqueles originados em regiões remotas, como o Cinturão de Kuiper e a Nuvem de Oort. O objetivo era verificar se a configuração atual do Sistema Solar faria mais sentido com ou sem a presença desse nono astro.

Um mistério que atravessa séculos

A busca por um nono planeta remonta a 1846, logo após a descoberta de Netuno. Foi esse mesmo esforço que levou à identificação de Plutão, em 1930. Com a reclassificação de Plutão como planeta anão, a existência de um novo planeta passou a ser vista como uma possibilidade concreta para explicar algumas anomalias orbitais, mas nunca foi confirmada por observação direta.

Desde 2016, essa hipótese ganhou força após a descoberta de seis objetos transnetunianos, cujas órbitas estavam alinhadas de forma incomum. Essa organização sugeria a presença de um corpo massivo e invisível influenciando suas trajetórias — algo que Netuno, por estar distante demais, não seria capaz de fazer.

Onde estaria o Planeta 9?

Segundo os pesquisadores, o suposto planeta estaria localizado além do Cinturão de Kuiper, uma região gelada e escura nos confins do Sistema Solar. Estima-se que ele esteja cerca de 600 vezes mais longe do Sol do que a Terra, tornando sua detecção extremamente difícil. Além disso, sua órbita seria tão extensa que levaria aproximadamente 10 mil anos para completar uma volta ao redor do Sol.

Essas características fazem com que o Planeta 9 permaneça fora do alcance dos telescópios atuais, sendo procurado praticamente às cegas.

A aposta nos cometas

Para contornar as limitações observacionais, os cientistas decidiram analisar o comportamento dos cometas — corpos celestes pequenos e gelados que muitas vezes se formam nas regiões periféricas do Sistema Solar. A lógica é que, se o Planeta 9 exerce influência sobre os objetos transnetunianos, ele também deve afetar os cometas formados naquela mesma região.

De acordo com Rafael Ribeiro de Sousa, professor da Faculdade de Engenharia e Ciências da Unesp e líder do estudo, os dados foram surpreendentes. “Descobrimos que houve um match, uma coincidência. Nossas simulações foram consistentes com as observações das órbitas dos cometas”, explicou ao Jornal da Unesp.

A equipe comparou a quantidade de cometas com mais de 10 km de diâmetro prevista nas simulações com os números reais observados. Sem o Planeta 9, o modelo gerava menos de um cometa com essas características. Com o Planeta 9 incluído, o número subia para cerca de 3,6 — valor muito mais próximo dos quatro já detectados na realidade.

Novas estimativas sobre o tamanho do planeta

Outra contribuição do estudo foi a revisão das possíveis dimensões do Planeta 9. Enquanto pesquisas anteriores estimavam que ele teria cerca de 15 vezes a massa da Terra, os dados mais recentes apontam para um corpo com aproximadamente 7,5 massas terrestres — o suficiente para explicar os efeitos gravitacionais detectados sem destoar da estabilidade atual do Sistema Solar.

O próximo passo da pesquisa

Com os resultados positivos, a equipe agora pretende ampliar a análise para cometas de longo período, aqueles originados na Nuvem de Oort. O comportamento desses corpos celestes pode fornecer mais pistas sobre a possível influência gravitacional do Planeta 9 em regiões ainda mais distantes.

Além disso, os cientistas esperam que novos objetos transnetunianos sejam descobertos nos próximos anos. Cada nova identificação pode ajudar a refinar as estimativas da órbita e da localização do nono planeta, tornando sua detecção — e talvez até uma futura observação direta — mais viável.

Um enigma ainda em aberto

Embora o Planeta 9 continue invisível aos nossos olhos, os dados simulados reforçam a ideia de que algo está exercendo influência sobre a estrutura do Sistema Solar exterior. A hipótese do nono planeta, antes considerada especulativa, ganha respaldo com estudos como este, que unem observações reais e simulações de longo prazo.

Se confirmado, o Planeta 9 não apenas redefiniria a configuração do Sistema Solar, mas também abriria caminho para novas perguntas sobre sua origem, composição e papel na evolução cósmica que moldou nosso vizinho celeste. Até lá, ele permanece como uma sombra matemática em meio ao espaço profundo — um gigante oculto à espera de ser revelado.

[Fonte: Correio Braziliense]

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