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Tecnologia

O CEO da Nvidia diz que o boom da IA vai criar mais empregos para encanadores — e não apenas para engenheiros

Enquanto parte do setor tecnológico prevê um futuro com menos trabalho humano, o CEO da Nvidia defende o oposto. Para Jensen Huang, a expansão da inteligência artificial exigirá uma infraestrutura gigantesca, capaz de gerar milhares de empregos bem pagos em áreas técnicas, da construção civil à eletricidade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O avanço da inteligência artificial costuma vir acompanhado de alertas sobre desemprego em massa e o fim de diversas profissões. Mas nem todos os líderes do setor compartilham dessa visão. Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, apresentou um cenário bem diferente: segundo ele, a corrida global pela IA pode impulsionar uma demanda inédita por trabalhadores técnicos, como encanadores, eletricistas e operários da construção.

Duas visões opostas sobre o futuro do trabalho

Enquanto figuras como Elon Musk argumentam que a automação tornará irrelevante até mesmo poupar para a aposentadoria, ao reduzir drasticamente custos e gerar abundância, Jensen Huang aposta em uma transformação menos radical — e mais plausível. Para o executivo da Nvidia, o crescimento da IA não elimina empregos em massa, mas desloca a demanda para áreas essenciais que sustentam a nova economia digital.

Segundo Huang, o mundo está entrando no que ele chama de “a maior expansão de infraestrutura da história da humanidade”, um processo que já movimenta centenas de bilhões de dólares e deve se intensificar nos próximos anos.

A infraestrutura invisível por trás da IA

Huang fez suas declarações em uma conversa com Larry Fink, CEO da BlackRock, durante o Fórum Econômico Mundial. Ao ser questionado sobre como a IA deve remodelar a economia e o mercado de trabalho, ele explicou sua visão usando a metáfora de um “bolo de cinco camadas”.

No topo estão as aplicações usadas por empresas e consumidores. Abaixo vêm os modelos de IA, depois os serviços de computação em nuvem, seguidos pelos chips e, na base de tudo, a energia. Para Huang, os maiores ganhos econômicos virão quando setores como saúde, manufatura e serviços financeiros adotarem a IA em larga escala. Mas, para que isso aconteça, é preciso construir e expandir as camadas inferiores — justamente onde entram os empregos técnicos.

Encanadores, eletricistas e salários de seis dígitos

Segundo o CEO da Nvidia, fábricas de chips, centros de dados e “fábricas de IA” exigem enormes investimentos em construção, eletricidade, refrigeração e sistemas industriais. Isso cria uma demanda direta por profissionais qualificados em áreas técnicas, muitos dos quais não exigem formação universitária tradicional.

“Estamos falando de salários de seis dígitos para pessoas que constroem fábricas de chips, fábricas de computadores ou fábricas de IA”, afirmou Huang. Ele destacou que é possível ganhar muito bem nesse novo cenário sem precisar de um doutorado em ciência da computação.

A IA como ferramenta, não como substituta

Huang também rebateu o medo de que a IA vá eliminar rapidamente profissões de escritório. Como exemplo, citou a radiologia, frequentemente apontada como uma das áreas mais vulneráveis, já que algoritmos são muito eficientes na análise de imagens médicas.

Na prática, segundo ele, o efeito foi o oposto. Em vez de substituir radiologistas, a IA aumentou sua produtividade, permitindo atender mais pacientes e, paradoxalmente, impulsionando a demanda por mais profissionais na área.

O desafio para países em desenvolvimento

Ao falar sobre economias emergentes, Huang defendeu que a infraestrutura de IA deve ser tratada como estradas, portos ou redes elétricas: um investimento estratégico de base. Para ele, cada país deveria construir sua própria capacidade em inteligência artificial, explorando aquilo que considera um recurso natural fundamental.

“Cada nação deveria desenvolver sua própria IA e aproveitar seu recurso mais básico, que é sua língua e sua cultura”, afirmou. A ideia é que modelos treinados localmente possam refletir melhor contextos culturais, sociais e linguísticos específicos.

Um discurso que ecoa no setor

A fala de Huang dialoga com comentários feitos em Davos por outros executivos. O CEO da Palantir, Alex Karp, também reconheceu que a IA pode eliminar empregos em áreas como as humanidades, mas afirmou que continuará havendo ampla demanda por pessoas com formação técnica e profissionalizante.

Para Karp, esse cenário inclusive levanta questionamentos sobre políticas migratórias, já que muitos dos novos empregos exigiriam habilidades específicas e treinamento técnico, mais do que grandes fluxos de mão de obra genérica.

Otimismo com interesses bem alinhados

Huang encerrou sua participação defendendo ainda mais investimentos em inteligência artificial. É um discurso coerente — e conveniente — para alguém cuja fortuna está ligada a uma empresa que domina uma das camadas mais críticas desse “bolo” da IA: os chips.

Ainda assim, sua visão oferece um contraponto importante ao discurso apocalíptico sobre o futuro do trabalho. Em vez de um mundo sem empregos, ele descreve um cenário de transformação profunda, onde o crescimento da IA pode, ironicamente, valorizar profissões tradicionais e técnicas que mantêm a infraestrutura do mundo funcionando.

 

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