Quando um político do partido que apoiamos erra, relativizamos. Quando o rival comete algo menor, condenamos com rigor. Essa assimetria não é acaso — é autoengano. Em Se han cometido errores (pero yo no fui), Elliot Aronson e Carol Tavris explicam por que justificamos nossos próprios equívocos e rejeitamos admitir falhas. A chave do fenômeno está na dissonância cognitiva: o desconforto mental causado quando nossas ações e crenças entram em conflito. Para sobreviver a ele, o cérebro distorce.
A origem do autoengano: para não sofrer, reinterpretamos a realidade

A dissonância cognitiva, conceito formulado por Leon Festinger em 1957, explica essa tendência humana de justificar erros. Segundo Aronson e Tavris, a autojustificação é mais poderosa que a mentira: ela nos permite preservar a imagem que temos de nós mesmos.
O exemplo clássico que inspirou a teoria foi o de uma seita que previu o fim do mundo para 21 de dezembro de 1954. Quando o apocalipse não aconteceu, muitos seguidores — especialmente os que sacrificaram bens — reforçaram ainda mais sua crença. Aceitar o erro era doloroso demais.
Documentos revelados recentemente, porém, sugerem que parte desse episódio pode ter sido construído de forma distorcida, com manipulação e intervenção indevida de pesquisadores. Mesmo assim, como destaca o psicólogo Fernando Blanco (Universidade de Granada), o fenômeno da dissonância segue amplamente comprovado em estudos posteriores — a anedota pode ter sido exagerada, mas a teoria permanece sólida.
Psicologia social entre mito, evidência e exagero
Grandes experimentos de referência também foram revisitados. O estudo de Stanley Milgram (1961), que avaliou obediência à autoridade, costuma ser interpretado como prova de que as pessoas seguem ordens cegamente, mesmo causando dor. Mas análises recentes indicam que até metade dos participantes sabia que os choques eram falsos.
Ainda assim, como afirma Rafael Gil Ortega (Universidade Autônoma de Madrid), o fenômeno não deixa de existir — apenas não é tão absoluto quanto os manuais sugerem. Muitas narrativas que se tornaram símbolos acadêmicos carregam simplificações didáticas, mais mito do que registro preciso. Mas mitos úteis também ensinam.
Por que o cérebro nos protege do erro — e quando isso é um problema
Sentir dissonância gera culpa e desconforto. Para escapar disso, buscamos informações que confirmam o que já pensamos e rejeitamos qualquer dado que nos contradiga. É o mecanismo que sustenta teorias conspiratórias, polarização política e até desculpas pessoais.
Mas autoengano também tem lado funcional: ele evita que fiquemos paralisados pelo arrependimento. Como diz Tavris, permite que durmamos à noite. O risco surge quando protegemos tanto nossa imagem que perdemos capacidade de rever atitudes e melhorar.
Blanco explica que nem todos se autoenganam da mesma forma — experiência, contexto emocional e privilégio moldam o que escolhemos (consciente ou não) ignorar.
Memória enganosa: quando o passado é reescrito para caber na narrativa
O livro dedica um capítulo à criação de memórias falsas. Ao contrário de um HD, a memória reconstrói — e pode ser moldada por sugestão, desejo ou contexto. Terapias mal conduzidas já geraram lembranças inexistentes de abusos infantis, levando inocentes à prisão.
Traumas também podem ser interpretados de forma equivocada. Nem todo evento marcante deixa cicatriz; às vezes ele simplesmente foi superado. E quando faltam informações, o cérebro completa lacunas com o que parecer mais coerente — mesmo que falso.
O autoengano aperfeiçoa esse processo: reinterpretamos o passado para justificar decisões. “Não fui enganado, eu queria comprar mesmo”, racionaliza o eu futuro para aliviar o eu ferido.
Como treinar o cérebro contra o autoengano

Segundo Gil, a melhor forma de escapar da ilusão não é introspecção — é confronto externo. Falar com outros, buscar visões opostas e decidir com calma, longe da emoção.
Miriam Rocha (ITEMA) propõe três passos práticos:
- Reconhecer nossos vieses (eles existem e são úteis, mas limitados)
- Observar situações que nos tornam mais vulneráveis ao erro
- Pausar antes de concluir — tratar nossas interpretações como hipóteses, não verdades
Como bons cientistas de nós mesmos, devemos perguntar: Que evidências sustentam minha versão? Há dados que a derrubam? A objetividade não nasce espontânea — ela se conquista.
Em terapia, a dissonância é utilizada como ferramenta para identificar padrões problemáticos e substituí-los por condutas mais funcionais. Não se corrige o erro negando-o, mas iluminando-o.
[ Fonte: Xataka ]