As relações entre Estados Unidos e Arábia Saudita costumam girar em torno de petróleo, segurança no Oriente Médio e alianças estratégicas. Porém, durante uma reunião na Casa Branca, Mohammed bin Salman surpreendeu ao focar em um assunto distante da região: a crescente tensão em torno da Venezuela. Em meio a rumores de possível intervenção militar americana, Riad busca evitar uma escalada que afetaria mercados globais e quer propor uma alternativa diplomática que preserve seus próprios interesses energéticos.
Um encontro que ultrapassou a pauta do Oriente Médio
A reunião entre Donald Trump e Mohammed bin Salman deveria tratar de Gaza, Irã e estabilidade regional. No entanto, segundo autoridades presentes, surgiu um tema inesperado: o risco de conflito envolvendo os Estados Unidos e a Venezuela.
A Arábia Saudita vê a possibilidade de um choque militar no Caribe como um risco geopolítico e econômico de grande escala. Uma guerra poderia desestabilizar mercados, especialmente o do petróleo — área crucial para Riad.
Por isso, Bin Salman aconselhou Trump a evitar qualquer intervenção direta e, em vez disso, negociar uma transição dentro do próprio regime chavista, garantindo que o sucessor de Maduro seja mais alinhado a Washington do que a China ou ao Irã.
O cálculo energético por trás da estratégia saudita
Para Riad, a questão central é o equilíbrio do mercado petrolífero. Venezuela produz cerca de 100 mil barris por dia, e os sauditas preferem que a maior parte desse petróleo seja direcionada aos Estados Unidos, e não à China.
Com previsões de excesso de oferta global no próximo ano, qualquer ruptura na produção venezuelana — causada por guerra ou colapso político — poderia provocar instabilidade severa nos preços.
Assim como Catar, a Arábia Saudita tenta assumir o papel de mediadora, ampliando sua influência diplomática em crises distantes, reforçada por sua crescente presença global em setores como o esporte. A participação de Gianni Infantino, presidente da FIFA, no encontro foi vista como um gesto simbólico dessa expansão estratégica.
A proposta de transição e os dilemas de Washington
Segundo o New York Times, Maduro teria sugerido deixar o poder após “dois ou três anos de transição”. Trump rejeitou inicialmente, mas confirmou a existência de canais de diálogo.
Para os EUA, uma intervenção militar envolveria riscos enormes: a oposição venezuelana está fragmentada, e as Forças Armadas continuam sob o controle do chavismo. Sem o apoio militar interno, nenhum governo de transição conseguiria se sustentar.
Isso abre espaço para negociações com figuras centrais do regime, como Vladimir Padrino López, Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez — atores decisivos para qualquer acordo.
Por que a Arábia Saudita quer moldar o desfecho
Para Riad, evitar uma guerra na Venezuela é essencial para proteger o mercado de petróleo, conter o avanço de China e Irã e manter estabilidade global em um momento de redefinição energética.
A proposta saudita visa uma transição pactuada, evitando um vácuo de poder e preservando um alinhamento estratégico favorável aos EUA e ao Golfo.
Enquanto Trump pondera custos e efeitos, Maduro busca alternativas e a Arábia Saudita tenta ganhar tempo para impedir que a situação evolua para um conflito.