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Ciência

O corpo acumula células estranhas conforme envelhece e pesquisadores descobriram como diferenciá-las

Elas param de se dividir, mas continuam ativas dentro dos tecidos. Agora, pesquisadores encontraram sinais capazes de diferenciá-las sem precisar destruir as células durante a análise.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Nem todas as células que deixam de se multiplicar simplesmente desaparecem. Algumas permanecem no organismo, metabolicamente ativas, enquanto acumulam alterações capazes de influenciar o ambiente ao redor. Com o passar dos anos, elas podem se tornar mais numerosas e têm sido estudadas por sua possível relação com diferentes processos associados ao envelhecimento. O problema é encontrá-las com precisão. Uma nova técnica pode tornar essa tarefa consideravelmente mais fácil.

Elas param de se dividir, mas continuam muito longe de estar mortas

As chamadas “células zumbi” são, na realidade, células senescentes. Elas podem surgir quando uma célula enfrenta diferentes formas de estresse, incluindo danos ao DNA.

Em vez de continuar se dividindo, a célula entra em um estado relativamente estável no qual interrompe sua proliferação, mas continua metabolicamente ativa.

Esse mecanismo não é necessariamente prejudicial. A senescência faz parte da biologia normal e pode participar de processos importantes do organismo.

A situação muda quando essas células começam a se acumular.

O sistema imunológico consegue reconhecer e eliminar muitas delas, mas essa capacidade pode diminuir com a idade. Com isso, células senescentes permanecem nos tecidos e podem alterar o ambiente ao redor por meio das moléculas que produzem e liberam.

Sua presença tem sido associada a inflamação, deterioração dos tecidos e diferentes doenças relacionadas ao envelhecimento.

Por isso, pesquisadores querem entender exatamente onde essas células aparecem, como se comportam e quais diferenças existem entre elas.

Há, entretanto, um obstáculo importante: não existe uma única característica capaz de identificar perfeitamente todas as células senescentes.

Foi justamente esse problema que pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) decidiram enfrentar.

A pista apareceu quando os cientistas observaram como a luz interage com as células

A equipe, que inclui Ke Zhang e Jeon Woong Kang, recorreu à microscopia Raman, técnica capaz de revelar informações sobre a composição bioquímica de uma amostra analisando como a luz interage com suas moléculas.

Para esse tipo de pesquisa, ela oferece uma vantagem particularmente importante: as células podem ser examinadas sem serem destruídas.

Mas os cientistas foram além.

Eles combinaram os dados obtidos pela microscopia Raman com informações sobre a expressão genética das mesmas células em resolução individual.

Ao cruzar as duas fontes, conseguiram relacionar determinados padrões espectroscópicos com alterações moleculares associadas à senescência.

O resultado foi uma espécie de assinatura característica.

Os pesquisadores descrevem esses padrões como “códigos de barras”, capazes de ajudar a distinguir rapidamente células senescentes das demais.

A abordagem recebeu o nome de RamanOmics e tenta conectar aquilo que pode ser detectado fisicamente pela espectroscopia às transformações moleculares que acontecem dentro da célula.

É essa combinação que responde à questão central: as “células zumbi” podem ser identificadas por padrões bioquímicos específicos revelados pela luz e relacionados à sua atividade genética, sem precisar destruí-las durante o processo.

Existe uma limitação importante antes de levar a técnica aos humanos

Os resultados foram publicados na revista Nature Aging, mas ainda existe uma distância considerável entre a descoberta e uma possível aplicação médica.

Até agora, os experimentos descritos foram realizados com células de camundongos.

Isso significa que o estudo ainda não demonstra que os mesmos “códigos de barras” funcionarão de maneira equivalente em tecidos humanos.

O próximo objetivo dos pesquisadores é justamente adaptar a estratégia para esse cenário.

Se conseguirem, a possibilidade de localizar células senescentes preservando-as pode permitir acompanhar com mais detalhes onde elas aparecem, como se acumulam e de que maneira participam tanto do envelhecimento quanto da reparação dos tecidos.

Também pode ajudar pesquisas que tentam compreender o que acontece quando essas células permanecem no organismo durante períodos prolongados.

Encontrar as “células zumbi” não significa ter descoberto como deter o envelhecimento

A descoberta exige uma distinção importante.

A nova técnica não é um tratamento contra o envelhecimento, nem demonstra que eliminar células senescentes seja suficiente para prolongar a vida ou evitar doenças relacionadas à idade.

Sua contribuição é mais específica: oferecer uma nova maneira de identificar e estudar essas células enquanto elas permanecem intactas.

Isso pode ser especialmente valioso porque a senescência não é um fenômeno simples ou uniforme. Diferentes células podem chegar a esse estado por caminhos distintos e apresentar características variadas.

Quanto melhor os cientistas conseguirem reconhecê-las, mais detalhado poderá ser o mapa de seu papel no organismo.

Agora, a grande pergunta é se as assinaturas encontradas nos experimentos com camundongos também aparecerão em tecidos humanos.

Se isso acontecer, a luz poderá se transformar em uma ferramenta particularmente poderosa para observar um dos fenômenos celulares mais intrigantes associados ao envelhecimento — sem precisar destruir justamente aquilo que os pesquisadores querem entender.

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