Na última década, a psicologia infantil tem ampliado sua visão sobre os transtornos de atenção. Um dos avanços mais importantes foi o reconhecimento da síndrome de desconexão cognitiva (SDC), um quadro clínico que, apesar de se parecer com o TDAH, apresenta sinais distintos e ainda pouco reconhecidos. Saber diferenciá-lo é essencial para garantir o bem-estar emocional e escolar das crianças.
Uma nova forma de olhar para os distúrbios de atenção
Em 2023, um grupo de treze especialistas em TDAH redefiniu o que antes era chamado de “ritmo cognitivo lento”, criando o conceito de síndrome de desconexão cognitiva. A ideia surgiu da insatisfação com os modelos tradicionais do TDAH, que classificam os pacientes em três subtipos: combinado, desatento e hiperativo/impulsivo.
Pesquisas recentes mostraram que algumas crianças enquadradas no subtipo desatento apresentavam sinais diferentes, que não envolviam impulsividade nem agitação — características essenciais para o diagnóstico de TDAH combinado. Assim, a SDC passou a ser investigada como uma condição à parte.
O que diferencia a SDC do TDAH desatento?
Embora ambos compartilhem dificuldades de concentração, a SDC apresenta sinais muito específicos: lentidão no pensamento e nos movimentos, sonolência frequente, tendência ao isolamento, confusão mental e timidez excessiva. Essas crianças raramente têm comportamentos impulsivos ou disruptivos.
Já no TDAH desatento, os problemas de foco vêm acompanhados de traços impulsivos, como interrupções constantes, pressa para concluir tarefas ou dificuldades de controle verbal.
Um estudo recente com mais de 5.500 crianças e adolescentes na Espanha confirmou que, apesar de parecidos em aparência, os dois quadros têm impactos diferentes na vida cotidiana e exigem abordagens distintas.

Diagnóstico formal ou nova dimensão clínica?
Apesar de sua relevância clínica, é improvável que a síndrome de desconexão cognitiva seja reconhecida como um diagnóstico independente. A tendência atual é considerar os transtornos mentais de forma dimensional, e não como categorias fixas. Dentro dessa lógica, a SDC se apresenta como uma dimensão importante que pode coexistir com transtornos do sono, dificuldades de aprendizagem ou quadros emocionais como ansiedade e depressão.
Estima-se que 1 em cada 3 crianças com diagnóstico de TDAH também apresentam sintomas significativos de SDC, o que agrava seu desempenho e bem-estar geral.
O que pais e educadores devem observar
Mais do que buscar novos rótulos, o essencial é identificar sinais sutis como cansaço constante, dificuldade de expressão, distanciamento social e lentidão nas respostas. Muitos desses sintomas passam despercebidos justamente por não serem desafiadores como outros distúrbios de comportamento.
Com a ajuda de escalas de avaliação validadas e observações cuidadosas, profissionais de saúde mental, professores e famílias podem detectar a síndrome a tempo e oferecer apoio adequado — um passo que pode fazer toda a diferença no futuro emocional e acadêmico das crianças.