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Ciência

O DNA antigo está reorganizando a história das Américas — e uma população “fantasma” faz parte do quebra-cabeça

Centenas de genomas antigos estão redesenhando a chegada humana às Américas e enfraquecendo algumas hipóteses extremas. Mas uma descoberta no deserto continua difícil de encaixar nessa história.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Há cerca de 20 mil anos, enormes mantos de gelo cobriam parte da América do Norte, enquanto o nível dos oceanos era tão baixo que Sibéria e Alasca estavam conectados por terra. Parece um momento improvável para iniciar uma das maiores expansões humanas da pré-história. No entanto, uma nova revisão genética indica que foi justamente nessa janela extrema que os ancestrais dos povos originários começaram a entrar nas Américas.

Centenas de genomas colocam limites em uma discussão de 100 mil anos

O estudo, publicado na Current Opinion in Genetics & Development, comparou aproximadamente 257 genomas antigos completos das Américas com dados genômicos parciais de outras 1.204 pessoas.

Os pesquisadores cruzaram essas informações com alguns dos sítios arqueológicos mais controversos do continente.

E as datas propostas variam dramaticamente.

No sítio Cerutti, na Califórnia, ossos fraturados de mastodonte foram interpretados como possível evidência de atividade humana há cerca de 130 mil anos. Já Swan Point, no Alasca, apresenta evidências de aproximadamente 14.200 anos amplamente aceitas.

Entre os dois extremos estão Monte Verde II, no Chile, com cerca de 14.500 anos, e as famosas pegadas de White Sands, no Novo México, datadas em aproximadamente 23 mil anos.

A genética cria um teste independente para essas hipóteses.

Segundo os autores, se Cerutti realmente tivesse sido ocupado por humanos 130 mil anos atrás, dificilmente seriam Homo sapiens. Seria necessário considerar neandertais, denisovanos ou algum grupo humano ainda desconhecido.

Os padrões de ancestralidade e mistura com humanos arcaicos encontrados nos genomas indígenas antigos, porém, não apoiam esse cenário.

A janela que recebe maior sustentação genética para a entrada nas Américas é muito mais recente: entre aproximadamente 20 mil e 14 mil anos atrás.

Uma pequena população pode ter esperado milhares de anos cercada pelo gelo

O modelo mais consistente indica que uma população ancestral surgiu aproximadamente entre 25 mil e 20 mil anos atrás.

Ela teria resultado da mistura entre grupos relacionados aos antigos habitantes do norte da Eurásia — representados pelo indivíduo de Mal’ta, encontrado na Sibéria — e populações do leste asiático.

Durante o Último Máximo Glacial, esses ancestrais teriam permanecido relativamente isolados em algum ponto entre o leste da Sibéria, a plataforma ártica e Beringia, a extensa região que conectava Ásia e América.

Essa hipótese é conhecida como “pausa beringiana”.

Durante ou após esse isolamento, surgiram pelo menos três linhagens. Uma deu origem aos antigos nativos americanos, ancestrais da maior parte dos povos indígenas atuais. Outra, dos antigos beringianos, separou-se há aproximadamente 20.900 anos e não deixou descendentes conhecidos.

Há ainda uma terceira população, conhecida apenas pelas marcas deixadas no DNA.

Entre 15 mil e 15.500 anos atrás, os antigos nativos americanos teriam se dividido em dois grandes ramos. Um permaneceu associado ao norte do continente, enquanto o outro se espalhou rapidamente pelo restante da América do Norte e chegou à América do Sul.

E é justamente no território sul-americano que a história genética se torna ainda mais complexa.

O Brasil guarda uma das pistas mais estranhas dessa expansão

A revisão identifica pelo menos três grandes movimentos populacionais para a América do Sul.

Uma primeira expansão, relacionada ao indivíduo Anzick-1 — uma criança enterrada há aproximadamente 12.800 anos em Montana — deixou sinais genéticos em locais como Lagoa Santa, em Minas Gerais, e Los Rieles, no Chile.

Por volta de 9 mil anos atrás, novas linhagens chegaram e substituíram grande parte dessa ancestralidade. Muito mais tarde, há cerca de 1.300 anos ou menos, populações relacionadas à Mesoamérica também contribuíram geneticamente para grupos sul-americanos.

Lagoa Santa guarda ainda a evidência antiga da chamada População Y, uma misteriosa assinatura genética relacionada a populações da Australásia e encontrada atualmente em alguns povos amazônicos.

Mas o maior quebra-cabeça continua ao norte.

As pegadas de White Sands parecem ter aproximadamente 23 mil anos. Se essa data estiver correta, seus autores teriam vivido na América antes da principal diversificação identificada nos genomas conhecidos.

Isso não torna as pegadas impossíveis.

Elas poderiam pertencer a uma população ainda não representada nas amostras genéticas, a uma linhagem que desapareceu completamente ou a um grupo cuja contribuição sobrevive em proporções muito pequenas.

Existe uma limitação decisiva: nenhum genoma humano recuperado nas Américas é mais antigo que Anzick-1, de 12.800 anos.

Até surgirem amostras mais antigas, a genética consegue estreitar enormemente a janela — mas não fechar o caso.

Por enquanto, ela aponta para uma conclusão impressionante: os ancestrais dos primeiros americanos parecem ter iniciado sua expansão continental justamente quando o planeta atravessava uma das fases mais frias da última Era do Gelo.

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